Skip to content

Carnaval 2026

A magia do Carnaval: da tradição das marchinha ao ressurgimento dos blocos de rua

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

O Sem Segredo de sábado foi especial e animado pelo repertório carnavalesco. No ritmo das marchinhas e sambas-enredo, o comunicador Ipácio Carolino, o músico Odorico Ribeiro e o mestre de bateria Márcio Marques mergulharam na história e nas transformações da música carnavalesca brasileira. A conversa, que contou ainda com a participação de ouvintes, revelou não apenas a evolução dos ritmos, mas também o papel social e cultural dessa festa popular. Embora Passo Fundo não tenha carnaval de rua, o ressurgimento dos blocos resgata a cultura na cidade. A etimologia já entrega a alma da festa: “samba” vem do termo angolano “semba”, que significa celebração, festa, alegria. Como explicou Ipácio Carolino, a palavra foi se ressignificando até se firmar como gênero musical. O Carnaval brasileiro, herança europeia, ganhou contornos próprios ao incorporar elementos das culturas africanas, com as congadas e reuniões em terreiros e pátios — manifestações que posteriormente evoluíram para os blocos e, mais tarde, para as escolas de samba.

Márcio Marques, mestre de bateria, destrinchou as particularidades do samba-enredo: “Ele tem que atingir um objetivo. Os carnavalescos definem o tema, fazem as pesquisas e passam aos compositores a missão de contar aquela história. O samba-enredo não pode fugir do assunto, tem regras a cumprir, mas precisa ter animação e um refrão forte — aquele momento apoteótico que faz a arquibancada vir abaixo.” Odorico Ribeiro, músico e profundo conhecedor da história carnavalesca local, emocionou-se ao relembrar o trabalho de sua mãe, Dona Deja, figura central no Visconde e no Bom Sucesso. Ela transformava limitações em criatividade: em 1970, sem recursos, confeccionou fantasias de papel crepom com o tema “Festa das Flores” — e o Visconde venceu o Carnaval. Em 1973, buscou penas em aviários para homenagear o cacique Guaraé. “Minha mãe era uma artista. Levou para a avenida a história da neve em Passo Fundo em 1965, com papel picado sendo jogado dos prédios. O samba-enredo conta a história viva da cidade e da comunidade.”

O resgate pelos blocos

Passo Fundo viveu um “apagão carnavalesco” por alguns anos, mas a retomada vem acontecendo através dos blocos de rua — fenômeno que também revitalizou carnavais em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Odorico idealizou o Bloquito há três anos, ao lado de Ricardo Pacheco e outros artistas, cansados do vazio da folia na cidade. “O Bloquito é uma mistura: tocamos Caetano, Jorge Bem, Ivete Sangalo, marchinhas, samba-enredo, e até rock’n’roll um rockeiro carioca já subiu e tocou com nossa bateria de samba. Foi lindo!” O Carnaval Popular, que acontece na Gare, surgiu em 2018 de uma conversa entre Odorico e o então secretário de Cultura, hoje prefeito Pedro Almeida. A programação de domingo contou com a Banda da Saldanha, de Porto Alegre, que já fez sucesso no Rio de Janeiro — prova da força do carnaval de rua.

Funk é Carnaval?

A provocação veio de um ouvinte: funk é música de Carnaval? O debate acalorado refletiu a riqueza musical brasileira. Márcio Marques lembrou que a própria batida do funk carioca nasceu de um “breque” (pausa) da bateria de escola de samba, levada para a Marquês de Sapucaí e apropriada pelos morros. “Todos os ritmos que nos elevam e trazem alegria podem ser carnaval”, defendeu Ipácio. “Carnaval é brincadeira, é festa. Até música gaúcha pode ser — o vaneirão tem andamento muito parecido com o samba.” Odorico acrescentou: “Já transformamos música gaúcha em samba em roda. Não tem erro.” E Ipácio completou contextualizando: “O Carnaval se regionalizou pelo Brasil: frevo em Pernambuco, axé na Bahia, blocos com os mais variados ritmos. Carnaval é democracia musical.”

Memórias afetivas

Os ouvintes trouxeram à tona memórias preciosas. Seu Ibar lembrou a importância do poder público no fomento à cultura popular, enquanto Arthur provocou ao questionar o “politicamente correto” que silenciaria marchinhas como “Cabeleira do Zezé”. Odorico respondeu com a história de uma escola que desfilou de tamanco — porque alguém comprou tamancos do interior em promoção. “Isso me marcou muito. Minha mãe era carnavalesca, e essas histórias são nosso patrimônio.” Márcio compartilhou causos inesquecíveis: o Carnaval Regional de 1992, quando sua escola desfilou com fantasias feitas de tule (tecido de cortina) e meia-calça com ráfia na cabeça — e foram campeões; e o samba de 1999, composto pelo saudoso Ginho, que considera uma obra-prima perdida. Mas foi o resgate do samba da Viradouro de 2022 que o emocionou: “Falava da volta pós-pandemia, comparando com a gripe espanhola. Era um agradecimento por estarmos vivos.”

Carnaval que salva vidas e movimenta a economia

Um dos momentos mais contundentes do debate foi quando Márcio Marques refletiu sobre o papel social do Carnaval. Citando o amigo Alessio, da Confraria, disse: “Carnaval salva vidas. Na nossa época, nossa preocupação era o futebol e o desfile. Hoje, os jovens sem essas referências ficam à mercê da rua, do celular, do tráfico.” Ipácio reforçou: “Quem não investe em cultura acaba patrocinando a violência.” Odorico lembrou a cadeia produtiva que a festa movimenta: costureiras, serralheiros, artistas plásticos, músicos. “Em Uruguaiana e Cruz Alta não há hotel para o Carnaval — a população dobra. O dinheiro público aplicado retorna em turismo, geração de renda e autoestima.” Márcio trouxe um dado poderoso: “Numa bateria com 80 pessoas, tenho gari, morador de rua, médico, engenheiro, advogado, vereador. Naquele momento, não há branco, negro, gay, hétero, ateu. Somos todos um pelo mesmo objetivo: fazer acontecer.”

O futuro: oficinas e novas baterias

Encerrando com chave de ouro, Márcio anunciou que, após o Carnaval, iniciará uma oficina de percussão gratuita para adolescentes de 15 a 29 anos. “Quem quiser aprender, as inscrições estão abertas. O carnaval é para todos — basta gostar.” Odorico finalizou com um convite: “Dia 22, no Bar do Bole, na Vila Operária, teremos tarde de homenagens a quem deu a vida pelo Carnaval. Na segunda, fechamos a rua no bairro União. O carnaval não acabou. Ele só está recomeçando.” Como bem resumiu Ipácio Carolino: “Carnaval é resistência, é história viva, é alegria que não se cala. Viva o samba, viva a cultura popular, viva Passo Fundo!”

Notícias Relacionadas