Skip to content

Violência

RS registra mais de 1,2 mil feminicídios e 27 mil estupros em 13 anos, apontam dados oficiais

Públicado em Por RD Uirapuru / Mateus Pirolli

O ano de 2026 começa com um elevado número de mulheres assassinadas no Estado, chegando a 11 casos até o momento. No entanto, essa estatística não é uma exclusividade do ano que está iniciando. O Rio Grande do Sul contabilizou 1.284 feminicídios entre 2012 e 2025, o que representa, em média, uma mulher assassinada a cada quatro dias no estado. No mesmo período, foram registrados 27.426 estupros — mais de cinco casos por dia, o equivalente a uma mulher violentada sexualmente a cada quatro horas e meia. Os dados são do Observatório da Violência contra a Mulher da Secretaria de Segurança Pública do RS, compilados pela Frente Parlamentar de Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher, da Assembleia Legislativa.

Além dos feminicídios consumados e dos estupros, as estatísticas revelam uma dimensão ainda mais ampla do problema. Somando feminicídios tentados, ameaças, agressões e lesões corporais, as delegacias gaúchas registraram aproximadamente 854 mil ocorrências de violência contra a mulher ao longo dos últimos 13 anos, evidenciando um cenário persistente e estrutural.

O ano de 2018 foi o mais letal para as mulheres no Rio Grande do Sul, com 116 feminicídios. Já 2023 concentrou o maior número de estupros da série histórica, com 2.815 registros. Criado em 2012, o Observatório também contabiliza milhares de tentativas de feminicídio e outros crimes, reforçando que a violência atravessa mais de uma década sem redução consistente.

No campo das políticas públicas, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) foi criada em 2011, extinta em 2015 e recriada em 2025. O período sem a pasta representou uma lacuna importante na coordenação das ações de prevenção e fortalecimento da rede de proteção às mulheres.

Paralelamente, desde 2011, a Assembleia Legislativa mantém a Frente Parlamentar de Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher, atualmente coordenada pelo deputado estadual Adão Pretto Filho (PT). A iniciativa atua especialmente na conscientização masculina, com atividades educativas, campanhas públicas e ações em escolas, comunidades, estádios de futebol e espaços públicos.

Conforme o parlamentar, em entrevista na Uirapuru, os números caracterizam uma verdadeira epidemia. “A violência contra a mulher é uma epidemia. E epidemias só se enfrentam com investimento contínuo, especialmente na prevenção, na educação e na conscientização da sociedade”, afirma. Ele destaca que a maioria dos crimes é cometida por homens próximos às vítimas, como maridos, ex-companheiros e familiares, o que reforça a necessidade de mudar padrões culturais e comportamentais.

Segundo Adão Pretto Filho, é fundamental dialogar diretamente com os homens. “Precisamos mudar essa concepção, essa cultura ultrapassada do machismo. O ‘não’ de uma mulher é não. A mulher tem o direito de viver livremente, no horário que quiser e com a roupa que quiser. Essa é uma tarefa nossa, enquanto homens”, ressalta.

Entre as iniciativas em andamento, o deputado é autor de um projeto que prevê a inclusão do conteúdo da Lei Maria da Penha nos currículos da rede pública, como forma de atuar preventivamente desde a infância e a adolescência. Outras medidas, como o uso de tornozeleira eletrônica para agressores, a Lei da Máscara Roxa e campanhas de conscientização em estádios de futebol, também vêm sendo adotadas para ampliar a proteção às vítimas.

Apesar dos avanços, os dados demonstram que o enfrentamento à violência contra a mulher no Rio Grande do Sul ainda exige políticas públicas estruturadas, permanentes e articuladas entre Estado e sociedade, além de uma mudança cultural profunda para romper ciclos históricos de violência de gênero.