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Saúde

Ter saúde mental não significa não ter problemas, mas sim equilíbrio para lidar com eles

Públicado em Por RD Uirapuru / Zulmara Colussi

Em meio à campanha do Janeiro Branco, que incentiva a reflexão sobre saúde mental, o programa Sem Segredo reuniu especialistas para discutir os principais transtornos, a rede de apoio disponível e os desafios para quebrar estigmas. A psicóloga Isabela Ancillaggo, a assistente social Evanir de Albuquerque e o vereador Iriel Sachet, autor da lei municipal que institui a campanha na cidade, destacaram a importância do cuidado diário e da observação de sinais.

Sinais de alerta
Isabela Ancillaggo listou os transtornos mais comuns atualmente: ansiedade, depressão, burnout e fobias. Ela enfatizou a necessidade de observar mudanças de comportamento em si e nos outros. “Perceber se a pessoa está muito distante, desmotivada, sem vontade para as atividades diárias, com pensamento acelerado, falta de sono ou alterações no humor. Tudo isso são sintomas que a gente deve observar”, explicou. A psicóloga também alertou para a importância de ficar atento a pensamentos de risco à própria vida.

O papel da assistência social
Evanir de Albuquerque reforçou que a saúde mental não é uma condição puramente individual, mas é profundamente determinada por fatores sociais, ambientais e econômicos. “Ela é muito ligada a como é o modo e condição de vida e de trabalho dessa pessoa”, afirmou. O papel da assistência social, segundo ela, é auxiliar o indivíduo e a família a acessar políticas públicas que garantam qualidade de vida, atuando como um elo crucial entre a pessoa e os recursos disponíveis.

A Lei do Janeiro Branco
O vereador Iriel Sachet explicou que a lei aprovada no final de 2023 busca criar um marco temporal para o tema, aproveitando o início do ano como um momento de planejamento. O projeto prevê parcerias do município para levar discussões sobre saúde mental a escolas e empresas, além da contratação de profissionais. “Não basta aprovar projetos só para dizer que existe mais uma lei, tem que ser algo que a gente consiga realmente colocar em prática”, afirmou. Ele reconhece que a efetivação depende de recursos, que podem vir, por exemplo, de emendas parlamentares.

Pandemia, redes sociais
Os especialistas concordaram que a pandemia de Covid-19 agravou problemas de saúde mental devido ao isolamento e ao excesso de tempo com os próprios pensamentos. Isabela relacionou também a “explosão de informações” e a cultura das redes sociais ao aumento da ansiedade. “A gente vê a rede social e, às vezes, tudo é perfeito lá. Isso, com certeza, nos deixa mais ansiosos”, disse. Ela descreveu os sintomas da ansiedade: pensamento acelerado, preocupação excessiva, sudorese, palpitação e respiração ofegante.

Espiritualidade, fé e ciência
Questionada sobre o papel da fé, Evanir a reconheceu como um fator de proteção importante, vinculado à espiritualidade e ao fortalecimento interior. No entanto, ela e Isabela foram enfáticas ao destacar que, quando um transtorno está instalado, a busca por ajuda especializada (psicológica e psiquiátrica) é fundamental. “O que te faz bem, você deve investir. Se é ir para uma igreja, se é fazer uma caminhada… Mas quando a gente perceber os sinais, deve sim buscar ajuda profissional”, orientou a psicóloga.

Mudança geracional
Isabela observou uma mudança positiva na mentalidade das gerações mais jovens, que buscam mais autoconhecimento e terapia. No entanto, ela alertou para não esquecer os idosos, que muitas vezes foram criados com a ideia de que “isso é frescura”. Evanir complementou lembrando a desigualdade no acesso ao tratamento. “A saúde mental é determinada pela condição social. Tem pessoas que têm informação e conseguem acessar… outras precisam de políticas sociais”, disse. Ela defendeu que políticas públicas de educação, trabalho e renda também são formas de promoção da saúde mental.

A rede de atendimento
Evanir detalhou os serviços gratuitos ou pelo SUS disponíveis na cidade e que o atendimento inicial deve ser a Unidade Básica de Saúde para acolhimento e direcionamento:

  • CAPS II: Atendimento a transtornos graves.
  • CAPS AD: Foco no uso de álcool e outras drogas.
  • CAPS Infantil: Para crianças e adolescentes até 18 anos.
  • UBSs: Contam com psicólogos, e a UBS Farroupilha oferece atendimento psiquiátrico via Telesaúde.
  • Hospital Bezerra de Menezes:É referência para 147 município). Em 2025 registrou 907 internações e no ambulatório de saúde mental, atendeu 5,1 mil pessoas.

Depressão, luto e acolhimento
Sobre a depressão, Isabela listou os principais sinais: afastamento do círculo social, isolamento, humor deprimido, falta de ânimo para atividades antes prazerosas, alterações no sono e pensamentos suicidas. A recomendação para quem percebe esses sinais em alguém é, antes de tudo, acolher e ouvir. “Às vezes, a gente quer resolver a vida das pessoas… mas a gente deve escutar a pessoa, acolher e recomendar a busca por ajuda”, aconselhou.

Casos graves
Evanir explicou que o Hospital Bezerra de Menezes recebe os casos mais graves, como transtornos psicóticos agudos. A internação, que tem duração média de 20 dias, visa estabilizar a crise e ajustar a medicação, com retorno do paciente para continuar o tratamento nos serviços de base. O atendimento é multiprofissional, envolvendo psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e outros. Ela enfatizou que muitos transtornos, como os psicóticos, são condições crônicas, que exigem tratamento contínuo, similar a diabetes ou hipertensão, e que a interrupção por preconceito (como o contra os chamados “remédios de tarja preta”) pode levar a novos agravamentos.

Burnout e a pressão
Por fim, Isabela descreveu a síndrome de burnout como um esgotamento físico, mental e emocional crônico relacionado ao trabalho. “A pessoa vive no automático, tem um cansaço extremo que não melhora com o descanso, ansiedade extrema e, às vezes, um receio de encarar o trabalho”, detalhou. Ela reforçou a necessidade de buscar ajuda antes de chegar a esse ápice.

 Reflexão

O debate deixou claro que a saúde mental é um tema complexo, que exige atenção individual, suporte social e políticas públicas eficazes. A mensagem final é de que observar, acolher sem julgamento e buscar ajuda especializada são passos fundamentais para o cuidado, lembrando que, como disse Isabela, cuidar da mente “não é só quando você está com algum problema, mas sim para se conhecer”.