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Cidade

O sonho realizado das Cinderelas

Públicado em Por RD Uirapuru / Redação Uirapuru
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Vinte e oito de outubro, sexta-feira. No quarto 115, Posto 2 do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) de Passo Fundo, Geane Sibeli Jacinto, 15 anos, de Mato Castelhano, que realiza tratamento de um osteossarcoma, estampa no rosto um largo sorriso e olhos brilhantes. O semblante de Geani parece estar intacto há uma semana, pois no dia 21 de outubro, na Casa de Festas 285, a jovem realizou seu maior sonho. Uma festa de aniversário. Foi quando o sorriso se estampou. O mesmo aconteceu com outras cinco jovens que realizam tratamento oncológico no HSVP. A alegria de viver, a esperança e os sonhos que andavam perdidos em meio a quimioterapias, consultas e medicações, ressurgiu e a vivacidade da adolescência foi devolvida às seis meninas.

 

O diagnóstico e tratamento de câncer são difíceis em qualquer idade, mas encarar isso aos 14, 15 ou 16 anos é ainda mais complicado. É nesta época que começamos a descobrir vida, que nos conhecemos e formamos nossa personalidade. Os primeiros amores, as rebeldias sem causa, a escolha de roupas, músicas, os 15 anos e a transformação de menina para mulher. E foi no meio de tudo isso que, Geane, Keila de Almeida, de Frederico Westphalen, Eduarda de Carvalho Ribeiro, de Capão Bonito do Sul, Arieli Thereza Dornelles Oligario, de Cruz Alta, Eduarda Rakowski, de Catuípe e Maiara Gavasso de Erechim, viram a força do bem e um sonho tornar-se realidade.

 

 

Em uma conversa, o sonho começou

 

Em uma visita, no mês de março, para ministrar aula aos pacientes oncológicos infantojuvenis do Hospital São Vicente de Paulo, a professora Silvia Ricci, encontrou Geane, 14 anos na época. Entre uma lição e outra, a professora questionou Geane sobre sonhos, e esta a surpreendeu respondendo que seu maior sonho era ter uma festa de 15 anos e um vestido de princesa. Aquele sonho mexeu com Silvia, que logo quis dar à menina a festa que tanto sonhava.

 

Então, levou a ideia até a psicóloga do Centro Oncológico Infantojuvenil, Janaína Reolon Biasi, que ressaltou ser necessária uma festa para todas as meninas. Foi então, que Janaína e Silvia mostraram a ideia para o Projeto Desenhando Sorrisos, que já realizava trabalhos com as crianças no HSVP. Conversa daqui, conversa de lá, nasceu o Projeto Cinderela, com objetivo de realizar a festa de 15 anos para as seis jovens em tratamento. “Quando recebi a ideia, foi um grande desafio, mas desde o primeiro momento acreditei ser possível, pois sempre tivemos apoio de muitas pessoas do hospital e outras engajadas em nossas ações. Fizemos o esboço de uma primeira lista com o que seria fundamental.

 

Saí da reunião tomada por um entusiasmo gigante, e nesse mesmo dia iniciei a busca por parceiros. Local para a festa, decoração, salgados, doces, bolo, sapatinhos, anéis, coroas, salões para produção delas e das mães, DJ, banda, som, iluminação, filmagem e fotografia, flores, cabine fotográfica, ufa! Tudo com a colaboração de profissionais que doaram seu trabalho ou seu produto”, relata Melina Rodrigues, coordenadora do Desenhando Sorrisos, salientando ainda que foram mais de cinco meses de organização da festa e dos detalhes.

 

 

Dia especial

 

A canção já diz, “se alguém já te deu a mão e não pediu mais nada em troca, pense bem, pois é um dia especial”. E foi. O dia de princesa das seis meninas começou cedo. Elas vieram para Passo Fundo de manhã, almoçaram e foram para o salão beleza. As mães também receberam tratamento especial. Maquiagem, vestido, sapato, tudo pronto e então seguiram para o local da festa. Até o momento, as jovens não sabiam o que lhes esperava, foi quando viram toda a decoração, preparação e se surpreenderam. Pista de dança, palco, flores, luzes, tudo isso somado aos familiares e amigos das debutantes, tornou o ambiente mais que especial.

 

Para a entrada no salão, cada uma escolheu sua música. Ali já se percebia a personalidade de cada uma, assim como, os vestidos. Dourado com preto, azul escuro quase igual ao da Cinderela, azul claro, rosa com muito brilho, branco com rosa e verde claro com bastante bordado. Deslumbrantes, Eduarda Aline, Eduarda Carvalho, Keila, Maiara, Geane e Arieli entraram na festa, com todos os rituais tradicionais, parabéns, valsa, entrega do anel, homenagem dos pais e o brinde. “Quando eu entrei, não sabia se sorria ou se chorava, foi uma emoção muito grande. Um sonho que ainda estou vivendo”, conta Arieli, que em função do tratamento está com dificuldade de locomoção e visão, mas que viveu intensamente a festa, como todos que estiveram lá.

 

Assim como Arieli, todas relataram estar vivendo um sonho. “Gostei muito dos docinhos, da decoração. Estava tudo maravilhoso!”, expressa Geane. Para Maiara, tudo estava perfeito. “O vestido, a decoração e ver toda minha família sorrindo para mim, foi muito especial”.

 

 

Além das meninas, quem participou da organização e da festa também se emocionou com a alegria que contagiou a todos. “No dia da festa eu fiquei acompanhando as meninas durante a tarde, e cheguei com elas à festa. Ver tudo pronto, o salão decorado, as fotos delas no corredor da entrada, enfim, ver tudo concretizado trouxe uma emoção enorme, uma satisfação muito grande. Ver aquela listinha, que foi sendo riscada item após item ter se transformado como num toque de vara de condão. O sentimento de ver aquelas meninas entrando, tendo todos os detalhes como uma grande surpresa, foi um pouco materno”, conta Melina, revelando que o momento que mais à emocionou foi quando elas entraram na pista de dança, se divertiram e viveram a alegria de ser jovem.
 
“Todas as preocupações, apreensões, o peso da responsabilidade por ter os sonhos delas depositados em nossas mãos deram lugar à gratidão e à alegria. Nosso mais sincero agradecimento a todos que tornaram possível a realização dessa festa e que contribuíram com cada detalhe”.
 
 

Surpresa


Como diz a tradição, toda festa de 15 anos que se preze, tem príncipe e a do Projeto Cinderela não poderia ser diferente. A noite ficou ainda mais completa e dentro dos sonhos das seis jovens com a presença surpresa do cantor Luan Santana. A equipe do programa Fantástico da Rede Globo, que acompanhou as meninas antes e depois da festa, intermediou a vinda do ídolo. Keila, que na sua lista de 20 músicas para a festa, tinha 18 do cantor, pareceu não acreditar no que via. Arieli, ao saber de sua presença na festa, chorou muito. “Estava sensacional. Eu não sei nem se foi sonho ou realidade. Quando eu podia imaginar que na minha festa de 15 anos eu iria abraçar o Luan Santana? Desde pequena sempre gostei dele e poder abraçá-lo foi espetacular! Do fundo do coração agradeço a todos por esta festa”, conta Eduarda Carvalho.

 

 

Força para seguir no tratamento

 

Conforme a psicóloga Janaína, o Projeto Cinderela além de realizar o sonho das meninas, ajuda no enfrentamento da doença. “Esse momento faz elas voltarem à rotina de adolescente e esquecerem um pouco essa questão do tratamento. Notamos uma diferença muito grande na questão do humor, na autoestima, motivação de fazer o tratamento antes da festa para estarem bem, e no pós festa, depois de viver toda essa emoção. Era o sonho da maioria delas e com essa realização, a gente percebe que elas e os pais estão muito felizes e também motivados”, reitera.

 

 

Rosane Dornelles Pires, mãe da Arieli se emocionou muito antes, durante e depois da festa. “É muito bom saber que não estamos sozinhos nessa luta. As vezes a gente se desanima um pouco por causa da rotina do tratamento, dos problemas. Mas ao ver que tantas pessoas se motivaram e nos ajudaram nos dá força para continuar. Estava tudo mundo lindo. Não tenho condições de dar uma festa assim para minha filha e ver esse sonho dela realizado foi muito especial. Só temos a agradecer a todos os envolvidos”.