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Jornal TROCA-TROCA

Editorial do Jornal Troca-Troca desta sexta-feira (03):

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

O mundo, desde que é mundo, passou por inúmeros processos de transformação e evolução. É claro, que o avanço tecnológico em muito contribuiu para isso e diversos setores foram atingidos, seja para melhor ou para pior. O mercado de trabalho foi um destes setores e provavelmente o mais afetado. Até o final dos anos 80, ainda era possível encontrar pessoas, que com orgulho diziam que estavam se aposentando depois de uma vida inteira dedicada a uma única empresa. Sempre trabalharam no mesmo lugar e melhor, com muita dedicação, pontualidade e cortesia, tanto com superiores como com subalternos. O mesmo exemplo não se vê nas gerações nascidas a partir dos anos 90 e que hoje estão na faixa etária dos 35 anos para menos. Essa geração, é a que estudou, se formou e entrou no mercado de trabalho com uso da internet, que foi sem dúvida um dos maiores avanços inventados pela humanidade. 

O problema, é que essa geração jovem é muito instável quando o assunto é relações trabalhistas. Pós pandemia e mais recentemente com o acréscimo da Inteligência Artificial, esses jovens trabalhadores não permanecem por muito tempo em um emprego, isso quando aceitam o trabalho, o que tem sido coisa rara de se encontrar também. Os motivos disso são vários e que passam por questões demográficas, sociais e econômicas. Hoje o Brasil possui uma população mais envelhecida do que há anos atrás, pois cada vez mais a natalidade diminui. Os jovens também buscam empresas mais flexíveis e que se adaptem às suas vontades, com menos horas de trabalho e mais tempo para a vida pessoal e lazer. E também existe a questão da falta de qualificação para o trabalho e a oferta cada vez maior, que faz com que sempre ocorra uma rotatividade nos empregos em busca de salários maiores.

O problema disso tudo, além da falta de vontade para o trabalho de certos jovens, é que já sente-se prejuízos econômicos enormes em vários setores, colocando alguns em risco de extinção. Um exemplo são os motoristas de caminhão que envelheceram e as empresas procuram e não encontram novos trabalhadores. Tanto é, que pessoas habilitadas para conduzir esse tipo de veículo reduziram 62,89% em 10 anos. Setores ligados ao transporte buscam alternativas e passam a investir em profissionais próprios, mas mesmo assim não está fácil.

Além de caminhoneiros, são várias outras atividades essenciais para a economia e que não avançam devido à escassez de pessoas dispostas e qualificadas. É nítida uma certa má vontade e desinteresse dessa nova geração. Geração essa que tem procurado trabalhos fáceis, com jornada reduzida e preferência que envolva internet. Esse exemplo dos motoristas de caminhão, onde se vê veículos parados e empresas estagnadas por não ter operadores é igual ao setor da construção civil, cuidadores de pessoas, frentistas, professores e logística, apenas para citar alguns. Muitas empresas, mesmo oferecendo benefícios e treinamento, não conseguem interessados. Existem vagas de emprego e disposição até de se contratar uma pessoa não tão qualificada, mesmo assim falta gente para trabalhar. 

Essa atual situação é inacreditável, ainda mais se imaginarmos há poucos anos, onde era um sonho para qualquer pessoa entrar no mercado de trabalho. Havia sobras de profissionais, a ponto das empresas poderem com calma escolherem os melhores selecionados. Infelizmente, a essência sagrada do trabalho está sendo desvirtuada e chegamos nesse ponto. Na vida de uma pessoa, nada é mais digno do que ter uma atividade laboral e poder auxiliar no sustento e bem estar da família. O trabalho é uma das razões do conjunto que forma nossas vidas. Isso de repente vem sendo desprezado. 

O que aconteceu para inverter essa lógica que era tão desejada quando ainda estávamos na adolescência e víamos em nossos pais toda retribuição obtida com dedicação e esforço em um trabalho. Aonde esse desejo foi parar? Será que os objetivos de vida mudaram? Será que é a atual educação que vem de casa? Já imaginaram se daqui há pouco a sociedade toda decidir parar de trabalhar? O que será de nós? Seria possível que isso venha sendo provocado por tantos benefícios sociais como alguns grupos ideológicos afirmam? Parece que não. Para mudar esse cenário, as novas gerações de trabalhadores devem seguir o que dizia um poeta e músico indiano no século XIX chamado Rabindranath Tagore: “ Adormeci e sonhei que a vida era alegria; despertei e vi que a vida era serviço; servi e vi que o serviço era a alegria”. Pensemos nisso.