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Jornal TROCA-TROCA

Editorial do Jornal Troca-Troca desta sexta-feira (22): Subir na vida: é mais difícil para os pobres

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

Uma das perguntas que a humanidade a séculos tenta encontrar uma resposta, é, o que determina se uma pessoa terá sucesso na vida ou se será mais um fracassado na multidão? A pergunta parece ser simples e a resposta também, porém, não é bem assim. Poderíamos afirmar que para ter sucesso basta a pessoa estudar, sempre buscar o aperfeiçoamento e levar a sério a profissão escolhida, que assim, terá sucesso e garantia de uma vida tranquila e confortável. Também poderíamos dizer, que a pessoa fracassada, é aquela que não quer nada com nada e sem vontade de trabalhar. Mas como dito acima, não é bem assim, ou melhor, não é somente isso, principalmente no Brasil.

Nosso País formou-se através de uma elite agrária com plantações de cana-de-açúcar num primeiro momento e posteriormente grandes cafezais. Atrelado a isso, também tivemos uma sociedade latifundiária que utilizou a mão-de-obra escrava, formada por milhões de negros que foram trazidos do continente africano. Ambas as classes, proprietários de escravos e os próprios escravizados, contribuíram significativamente na formação cultural, econômica e política e que até hoje influenciam a nossa sociedade brasileira. Com o fim da escravidão em 1888, os ex-cativos e pobres sofreram preconceitos e com muita dificuldade conseguiam se inserir no mercado de trabalho, sendo geralmente em atividades insalubres, pesadas e de risco. Enquanto isso, herdeiros daquela elite, dominavam as profissões mais conceituadas, sendo é claro, que estudaram muito para isso, porém, não é apenas a educação que definia e ainda define esse sucesso profissional e econômico.

É exatamente isso, que o economista Michael França, coordenador do Núcleo de Estudos Raciais tenta mostrar na obra “A Loteria do Nascimento”, onde ele é co-autor, junto com o sociólogo Fillipi Nascimento. Neste livro, os autores defendem que o local onde as pessoas nascem, bem como se é originado por uma família rica ou pobre, é que determina boa parte do seu futuro. A educação é apenas uma pequena parte de algo muito mais complexo. Afirmar que o sucesso ou o fracasso deve-se apenas ao estudo, é uma falácia. A desigualdade social passa na verdade por uma questão envolvendo patrimônio herdado, vantagens recebidas por uma minoria, pagamento de impostos e é claro, estrutura familiar.

Em nossa sociedade, nos deparamos com diversas realidades de pessoas que possuem enorme capacidade intelectual, esforçados e estudiosos, porém, nasceram em famílias pobres e/ou desestruturadas, o que dificulta muito sua caminhada para “subir na vida”. Realidade bem diferente daqueles que nascem em berço de ouro, que muitas vezes não se esforçam, mas pelo fator “status” familiar, conseguem permanecer no topo da economia. 

É evidente também, que a acessibilidade de estudar nos últimos anos melhorou bastante. Cada vez mais, pessoas de baixa renda, estão conseguindo concluir seus estudos, formar-se em nível superior, e até mesmo realizarem mestrados e doutorados. Mas, para os oriundos de famílias pobres, essa caminhada é mais lenta e penosa. Os avanços na educação não foram suficientes para garantir aos mais pobres sucesso financeiro e status social. Portanto, não é apenas a educação que faz a pessoa ter sucesso ou não. Enquanto os ricos contam com uma rede de apoio que os auxiliam na conquista de empregos, os pobres sofrem com a falta de indicação ao emprego, não possuem liberdade financeira, o que os obriga a aceitar qualquer trabalho e, ao se submeterem a isso, acabam não conseguindo dar sequência a sua qualificação profissional. Além disso, no Brasil, os filhos de famílias humildes, também possuem uma estima baixa, o que os faz se sentirem menosprezados e não pertencentes a certos ambientes.

Essa, infelizmente, é a triste realidade da grande maioria da população brasileira. Vivemos em um País profundamente desigual e estratificado, onde o dinheiro é que manda e define o que você será e o que você pode fazer. Portanto, uma sociedade mais igualitária não depende apenas da educação. Depende acima de tudo de uma tributação mais justa acompanhada de uma profunda mudança cultural, onde possamos de fato nos darmos conta, que a meritocracia não está atrelada a condição econômica, e sim, a capacidade e esforço de cada um. Lamentavelmente, hoje no Brasil, a meritocracia beneficia apenas o filho do doutor tal, o amigo do político tal, o parente do patrocinador tal. É essa visão cultural que precisa ser mudada, caso contrário, o “subir na vida” para os pobres, será cada vez mais difícil.