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Mundo

Comerciante de Passo Fundo relembra origem palestina e migração forçada após criação do Estado de Israel

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

Filho de palestinos, o comerciante Amer Jaber compartilhou sua história familiar e os reflexos do atual conflito no Oriente Médio. Natural de Uruguaiana, ele reside em Passo Fundo desde 2005, quando a família se mudou para acompanhar a irmã, aprovada no curso de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF). Desde então, mesmo com a irmã já estabelecida em outro lugar, os pais, o irmão, a esposa e os filhos de Jaber permaneceram na cidade.

A história da família, no entanto, começa do outro lado do mundo. A avó materna de Jaber nasceu em Jerusalém e o pai, em Jericó. Segundo ele, o deslocamento dos avós se deu após a criação do Estado de Israel em 1948. “Onde os meus avós moravam já não existe mais. Com a criação de Israel, eles foram expulsos e fugiram, como se fossem uns cinquenta quilômetros de onde eram as terras deles”, relatou.

Já em 1967, com a eclosão da Guerra dos Seis Dias, a família paterna foi obrigada a se deslocar novamente, indo parar na Jordânia, onde permaneceram como refugiados. “Eles nunca mais voltaram para a Palestina”, declarou.

Por parte de mãe, os pais dela também deixaram o território palestino após a guerra de 1967. Instalaram-se inicialmente em cidades da região central do Rio Grande do Sul, até se fixarem em Uruguaiana, em razão do comércio e da proximidade com a Argentina. “Meu pai foi visitar Uruguaiana, porque o irmão dele já tinha loja lá. Acabou conhecendo a minha mãe, se casou e nunca mais voltou para lá”, afirmou.

A chegada ao Brasil ocorreu, segundo Jaber, por meio do desembarque do avô no porto de Santos. A escolha pelo Rio Grande do Sul se deu por já haver conhecidos na região. Apesar do distanciamento geográfico, a conexão com a Palestina permanece viva. A família mantém contato com parentes que ainda residem na Cisjordânia, incluindo a sogra de Jaber, que já viveu no Brasil, mas decidiu retornar ao território palestino há cerca de cinco anos.

Ao relatar a situação atual vivida pelos familiares que permanecem na Cisjordânia, Jaber descreve um cotidiano marcado por restrições de circulação, escassez de recursos e temor constante. “Mesmo estando em território palestino, para se deslocar entre cidades é preciso passar por checkpoints israelenses. A Cisjordânia é toda dividida por muros. Às vezes se tem um parente a cinco minutos e não se consegue ver por causa disso”, explicou. Segundo ele, mais de dois mil quilômetros de barreiras físicas fragmentam o território.

Para Jaber, não se trata de um conflito entre religiões, mas de uma disputa territorial histórica. “O pessoal olha lá e pensa que é uma guerra religiosa. Mas não é. É uma guerra territorial. Dez por cento dos palestinos são católicos. E vivem em harmonia. Tenho amigos judeus. Então não é uma guerra de religião, é política e territorial”, afirmou. Ele também contesta o uso do termo “guerra”, argumentando que apenas um dos lados possui poder bélico e respaldo internacional. “Só um lado tem armamento, só um lado tem proteção americana, e o outro lado não tem proteção nenhuma”, declarou.

De acordo com ele, o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza tem inviabilizado o envio de suprimentos e isolado a população local. “Não entra um quilo de alimento sem a permissão de Israel. Não se trata de uma guerra, é um genocídio. O que aconteceu na Alemanha há muito tempo atrás está acontecendo lá, e muito pior. E espero que não seja tarde para o mundo acordar”, afirmou.

Para Jaber, interesses econômicos estão entre os principais motivadores da ocupação. Ele menciona a existência de reservas de gás natural no mar próximo à Faixa de Gaza, estimadas entre 500 a 800 bilhões de dólares. “O objetivo é isolar e retirar aquele povo para outro lugar. Porque eles querem aquela riqueza que está no mar, onde ninguém vê. É o que já aconteceu na África e em outros lugares do mundo”, declarou.

Ao ser questionado sobre os impactos emocionais sofridos pelos familiares que vivem na Cisjordânia, Jaber diz que, apesar de não estarem no epicentro dos ataques, sentem os efeitos do conflito. “Eles ficam abalados. As bombas estouram e, embora pareça longe, é perto. Eles enxergam os mísseis passando, escutam os barulhos. Já se acostumaram, mas não têm onde se proteger. Do lado israelense, há bunkers, aplicativos que avisam. Do lado palestino, não tem nada”, relatou.

Segundo ele, até mesmo a liberdade de expressão é limitada nos territórios ocupados. “Se fizer uma postagem, já vai preso. Porque a autoridade palestina não manda em nada. É como se fosse um fantoche do governo de Israel”, afirmou.

Jaber também mencionou o Acordo de Oslo, firmado em 1993, que previa o reconhecimento mútuo entre Israel e Palestina. No entanto, o processo foi interrompido em 1995, com o assassinato do primeiro-ministro israelense que havia assinado o acordo. “Ali acabou. E não teve paz. Essa paz não existe desde 1948. E não vai haver, enquanto houver injustiça”, afirmou.

Para ele, é necessário que as pessoas busquem informações com profundidade e senso crítico. “Não acreditem em mim. Vão lá e pesquisem. Veja se é verdade ou não. Porque aqui no Brasil misturam política, religião, e todo mundo coloca o dedo como se fosse especialista”, disse.

Ao final da entrevista, Jaber reforçou que o sentimento da família é de pertencimento ao território palestino, apesar das dificuldades enfrentadas. “É o lugar deles. E o destino é só Deus que faz. A gente espera que possam vir as novas gerações e ter uma esperança antes que seja tarde”, concluiu.