Após 17 anos, número de fumantes volta a crescer no Brasil; RS lidera consumo e médico aponta cigarro eletrônico como porta de entrada para o vício
O número de fumantes no Brasil voltou a crescer em 2024, após 17 anos de queda. A informação foi divulgada pelo Ministério da Saúde com base na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento, mais de 21,3 milhões de brasileiros atualmente fazem uso do cigarro, sendo 12,8 milhões de homens e 8,4 milhões de mulheres.
No recorte por estados, o Rio Grande do Sul apresenta os percentuais mais elevados de consumo em praticamente todos os indicadores analisados. A média nacional de cigarros fumados por dia é de 12,6 unidades. No Rio Grande do Sul, esse número sobe para 14 cigarros por dia, o maior entre os estados.
O coordenador regional do IBGE, Jorge Benhur Bilhar, afirma que “o Rio Grande do Sul lidera quase todos os indicadores de consumo de cigarro no país, e isso exige atenção das autoridades e da sociedade”. Ele observa que, embora os dados por município não sejam divulgados por se tratarem de uma pesquisa amostral, é possível supor que o cenário em Passo Fundo segue a mesma tendência.
A pesquisa aponta também uma média superior no consumo diário entre os homens e mulheres gaúchos em comparação ao restante do país. No Brasil, homens fumam em média 13 cigarros por dia. No Rio Grande do Sul, essa média sobe para 15,3. Entre as mulheres, a média nacional é de 11, enquanto no estado o número atinge 13,2 cigarros por dia.
Em entrevista à Rádio Uirapuru, o médico pneumologista Vinicius Buaes Dal Maso relaciona o crescimento do tabagismo ao aumento do uso de cigarros eletrônicos, especialmente entre os jovens. “A maioria dos adolescentes que inicia com o cigarro eletrônico nunca tinha fumado um cigarro tradicional”, afirma. Segundo ele, um a cada cinco adolescentes já experimentou o dispositivo.
Dal Maso destaca que o cigarro eletrônico pode funcionar como porta de entrada para o cigarro tradicional. “Como ele é mais caro e exige um consumo mais frequente, muitas vezes há uma migração para o cigarro tradicional, pelo custo”, explica. O médico também menciona fatores como ansiedade e depressão, intensificados após a pandemia, como possíveis causas do aumento no número de fumantes.
A PNS confirma que o consumo de cigarros no Rio Grande do Sul é mais elevado em todas as faixas etárias. Entre pessoas de 40 a 59 anos, a média nacional é de 13,3 cigarros por dia, enquanto no estado esse número sobe para 15,7. Acima dos 60 anos, a média vai de 12,2 no Brasil para 14,2 no RS. Até mesmo na faixa de 18 a 24 anos, a média estadual (11,3) supera a nacional (10,7).
A escolaridade também aparece como fator associado ao tabagismo. Pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto fumam, em média, 15 cigarros por dia no Rio Grande do Sul. No Brasil, esse número é de 12,7. Mesmo entre aqueles com ensino superior completo, a média estadual (12,8) segue acima da nacional (11,9).
O rendimento mensal influencia diretamente na intensidade do consumo. Entre os que recebem até 1/4 do salário mínimo, a média no RS é de 14,9 cigarros por dia, contra 13 no Brasil. Na faixa de dois a três salários mínimos, o consumo atinge 17,3 cigarros por dia no estado, enquanto a média nacional é de 14,2 — a maior discrepância entre todos os indicadores observados.
No consultório, Dal Maso observa com frequência os efeitos respiratórios do tabagismo. “A gente vê aumento de doenças como bronquite crônica, enfisema e câncer de pulmão. Cerca de 80% a 90% dos casos de câncer de pulmão estão relacionados ao cigarro”, relata. O médico também chama atenção para o aumento do risco de doenças infecciosas entre fumantes, além de problemas cardíacos, vasculares e neurológicos.
Sobre o tratamento, Dal Maso afirma que o primeiro passo é a motivação pessoal. “Não adianta um familiar ou amigo querer que a pessoa pare de fumar se ela mesma não quiser”, diz. A abordagem envolve análise clínica, apoio psicológico, terapia cognitivo-comportamental e, em muitos casos, o uso de medicamentos disponíveis na rede pública, como bupropiona e reposição de nicotina por adesivos ou goma. “Essa combinação pode aumentar em até cinco vezes a chance de cessação”, destaca.
Segundo o pneumologista, quem deixa de fumar deve estar atento à manutenção do processo. “Às vezes, é só um cigarro e a pessoa volta a fumar uma carteira por dia. Por isso, é preciso evitar gatilhos como café, chimarrão ou bebida alcoólica”, explica.