Blecaute atinge Portugal e Espanha; geólogo explica possível origem e descarta risco imediato ao Brasil
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Milhões de pessoas foram afetadas por um grande blecaute de energia nesta segunda-feira (28) em Portugal e Espanha. O apagão teve início por volta das 12h30 (horário local), interrompendo o transporte público e provocando congestionamentos nas principais cidades dos dois países. Embora o fornecimento tenha sido restabelecido parcialmente, as causas do incidente ainda estão sob investigação.
Entre as versões que circularam após o episódio, ganhou destaque a possibilidade de um raro fenômeno atmosférico, uma chamada “vibração atmosférica induzida”, como causa do colapso elétrico. A informação teria sido atribuída ao operador de rede elétrica de Portugal, a REN (Redes Energéticas Nacionais), mas foi desmentida pela própria empresa. “O que aconteceu foi a legítima mentira, legítima fake news. Alguém produziu essa informação usando o nome da autoridade elétrica portuguesa”, afirmou o geólogo Luiz Paulo Fragomeni em entrevista à imprensa.
A informação falsa chegou a ser divulgada por agências internacionais, como a Reuters. “As fake news são tão bem feitas que pegam até esse pessoal preparado, que tem muito entendimento sobre essas coisas”, avaliou Fragomeni.
Apesar do desmentido, o geólogo explicou que o fenômeno atmosférico citado, embora raro, é real. “É uma turbulência na atmosfera que gera como se fossem redemoinhos de vento. Eles podem passar pela rede elétrica e causar uma ressonância, um efeito de vibração no sistema que se autoalimenta e acaba derrubando o sistema. Teoricamente pode acontecer, mas me parece uma explicação meio tirada da cartola”, disse.
Para Fragomeni, é mais provável que o blecaute tenha relação com a própria matriz energética renovável utilizada na Espanha. Segundo ele, o país já conseguiu, em algumas ocasiões, abastecer todo o consumo com fontes renováveis. “Pouco tempo atrás eles conseguiram isso por um dia inteiro. No normal, já estão conseguindo mais ou menos 60% de energias renováveis.”
O geólogo destacou que a matriz espanhola é fortemente baseada em fontes solar e eólica, o que pode provocar instabilidades. “Essa matriz solar teria gerado essa instabilidade porque ela pode sofrer oscilações muito grandes. Se o sistema não está ainda preparado para controlar essas alterações grandes de cargas energéticas, por algum motivo, alguma coisa aconteceu: em algum momento parou de gerar ou talvez teve uma redução muito grande e brusca e derrubou o sistema.”
Questionado sobre a possibilidade de um evento semelhante ocorrer no Brasil, Fragomeni lembrou que o país já enfrentou episódios de apagão, como o registrado em agosto de 2023, quando houve falhas em vários estados. “A causa daquele apagão foi essa mesma geração de energia alternativa, a fotovoltaica, a energia solar”, explicou. Ele destacou que, apesar dos avanços, as energias renováveis trazem novos desafios. “Essa matriz renovável é instável, no sentido de que não é uma energia constante. O sistema tem que estar preparado para isso.”
No entanto, o especialista descartou risco imediato de um evento semelhante ao europeu acontecer por aqui. “Uma das coisas que funciona bem no Brasil é o sistema elétrico. As quedas de energia, tipo esses apagões, são muito raros, pouco frequentes”, afirmou.
Fragomeni também ressaltou o avanço brasileiro no uso de energias renováveis. “O Brasil está num crescendo muito grande. Nós já somos talvez o país do mundo que mais usa energia limpa. A nossa matriz hidráulica é limpa. Em alguns momentos chegamos a ser cem por cento energia limpa, considerando a energia fluvial. Somos um exemplo para o mundo.”
O apagão europeu segue sendo investigado pelas autoridades espanholas e operadoras de energia da região, enquanto a hipótese de falha técnica ou sobrecarga na rede permanece em análise.