Cefaleia tensional: 78% das pessoas terão dor de cabeça tensional ao longo da vida, diz neurologista
Quem nunca teve dor de cabeça? Enquanto algumas pessoas sentem esse incômodo com frequência, outras o enfrentam apenas esporadicamente. O fato é que existem mais de 150 tipos diferentes de dor de cabeça, classificados em duas grandes categorias: cefaleias primárias e cefaleias secundárias.
O tema foi abordado na edição mais recente do programa Emoção, Afeto e Comportamento, da Rádio Uirapuru, apresentado semanalmente pelo psiquiatra Érico Hecktheuer. A convidada especial foi a médica neurologista Ana Squeff, especialista em dor, que trouxe informações importantes sobre causas, tratamentos e formas de prevenção.
Segundo a neurologista, a enxaqueca é um dos tipos mais incapacitantes de dor de cabeça, afetando cerca de 15% da população, principalmente entre os 25 e 55 anos — faixa etária considerada economicamente ativa. A condição atinge três vezes mais mulheres do que homens, devido à influência de fatores hormonais.
Diferente do que muitos pensam, a enxaqueca não é necessariamente a dor mais forte, mas é a que mais limita a rotina, gerando faltas no trabalho, perda de produtividade e impacto significativo na qualidade de vida.
Outro tipo bastante comum é a cefaleia tensional, provocada principalmente por tensão muscular. Essa dor pode se manifestar na nuca, nas laterais da cabeça, na testa ou na região atrás dos olhos. De acordo com Ana Squeff, esse tipo de cefaleia atinge pelo menos 78% da população em algum momento da vida. “É uma das formas mais prevalentes de dor de cabeça, e muitas vezes está relacionada ao estresse, ansiedade e postura inadequada”, explica a neurologista.
A médica explica que muitas pessoas podem apresentar mais de um tipo de dor de cabeça ao mesmo tempo, o que pode dificultar o diagnóstico. Como exemplo, ela cita que uma cefaleia tensional prolongada pode servir como gatilho para uma crise de enxaqueca. “Em alguns casos, a tensão muscular persistente acaba irradiando para a região crânio-facial e desencadeia uma crise de enxaqueca”, detalha.
Ainda sobre a enxaqueca — cujo nome científico é migrânea —, a neurologista explica que ela pode se manifestar com ou sem aura. A enxaqueca com aura é caracterizada por sintomas neurológicos que precedem a dor, geralmente surgindo cerca de 30 minutos antes da crise. Entre os sinais mais comuns estão escotomas visuais (pontos brilhantes no campo de visão), amortecimento na face ou em outras partes do corpo, dificuldade para falar ou, em alguns casos, perda temporária da visão, que pode retornar acompanhada de flashes luminosos ou linhas em zigue-zague.
Já a enxaqueca sem aura é aquela em que a dor se instala diretamente, sem sintomas prévios. Segundo Ana Squeff, trata-se de uma dor geralmente unilateral, embora possa mudar de lado, com início gradual e intensidade progressiva. É uma dor latejante, que costuma vir acompanhada de fotofobia (sensibilidade à luz), fonofobia (sensibilidade a sons), além de náuseas e vômitos. Esses sintomas tornam a crise especialmente limitante, afetando de forma significativa a rotina de quem sofre com o problema.
A neurologista destaca ainda o fator genético como um importante componente na predisposição à enxaqueca. “Costumo brincar no consultório que enxaqueca é herança. Minha avó tinha, meu pai tem, e eu também tenho. Quando começa na infância, geralmente os pais também sofreram com dor de cabeça na juventude”, comenta. Apesar da predisposição, ela explica que a frequência e intensidade das crises podem diminuir com o passar dos anos e, em alguns casos, melhorar durante a gestação.
Do ponto de vista neurológico, a dor de cabeça é resultado de um processo inflamatório que afeta os vasos sanguíneos, provocando o estreitamento desses vasos e ativando neurotransmissores ligados à dor. “A sensação de latejamento é uma resposta a essa inflamação. A dor é, na verdade, um sintoma — e não uma doença em si — que pode ter várias causas e manifestações”, explica Ana.
A médica também esclarece que a dor não vem diretamente do cérebro, mas sim da interpretação feita por ele. “O cérebro é o mapa do nosso corpo. Quando sentimos dor, como ao bater o dedinho, essa informação é enviada ao cérebro, que interpreta e nos faz sentir a dor. Com a dor de cabeça, acontece algo semelhante: há estímulos externos ou internos que ativam essa resposta dolorosa.”
Outro ponto destacado pela médica é que a enxaqueca interfere diretamente em outras funções do organismo. Um exemplo é a gastroparesia, uma condição em que o estômago “para” de funcionar temporariamente durante uma crise. Isso afeta a absorção de medicamentos e causa sintomas como náusea e vômitos. Por isso, o ideal é iniciar o tratamento logo nos primeiros sinais da crise, antes que o estômago entre nesse estado.
Mesmo pessoas sem histórico familiar podem sofrer com enxaqueca, mas a predisposição genética torna os episódios mais frequentes. Além disso, fatores ambientais e hábitos de vida são cruciais. “Qualidade do sono, alimentação, hidratação e rotina regular fazem toda a diferença”, alerta a especialista.
A neurologista enfatiza que a ruptura da rotina é um dos gatilhos mais comuns para quem sofre de enxaqueca. Dormir menos ou mais do que o habitual, pular refeições, ficar exposto a estímulos intensos ou ter alterações bruscas no ritmo diário podem desencadear crises. “Tudo o que tira a pessoa da sua rotina habitual pode gerar dor”, explica Ana.
A especialista comenta que em casos mais severos, quando o paciente não responde bem ao tratamento via oral, é possível recorrer a outras formas de administração de medicamentos, além de hidratação intravenosa, especialmente quando há episódios intensos de náusea. Essas abordagens, segundo a médica, podem ser eficazes para aliviar as crises mais difíceis.
Por fim, Ana Squeff lembra que todos terão dor de cabeça em algum momento da vida, mas é essencial observar os padrões, intensidade e frequência das dores. “A pergunta que devemos nos fazer é: por que estou tendo dor de cabeça e que tipo de dor é essa? Compreender isso é o primeiro passo para um tratamento eficaz.”