Especial Expodireto: Canola se destaca como alternativa rentável para a lavoura de invern
O Rio Grande do Sul é o atual maior produtor de canola do Brasil. “Segundo dados da Conab (2025), a cultura alcançou 146,1 mil hectares no estado em 2024, a área maior cultivada da série histórica, um aumento de 60% em relação à safra anterior. O Paraná é o segundo produtor de canola no Brasil, com apenas 4,2 mil hectares, seguido do Mato Grosso com 2,6 mil hectares. A cultura da canola representa cerca de 11% da área cultivada com trigo no Rio Grande do Sul, que foi de 1322,2 mil hectares em 2024”, afirma a engenheira agrônoma Nadia Canali Lângaro, doutora em Agronomia, professora da Escola de Ciências Agrárias, Inovação e Negócios (ESAN) da Universidade de Passo Fundo – Áreas de Produção de Sementes e Plantas de Lavoura.
Conforme a professora, a canola é uma alternativa excelente para o cultivo no inverno, ocupando áreas ociosas ou em rotação com o trigo, aveia, cevada e outras culturas. Dentre as vantagens da cultura, ela cita: “híbridos de canola Clearfield® (CL) são resistentes às imidazolinonas em pós-emergência, facilitando o controle de plantas infestantes de folhas largas (exemplo, nabiça) e estreitas (exemplo, azevém). Além disso, a rotação de áreas com canola no inverno diminui a incidência de doenças do trigo pela redução do inóculo de fungos que sobrevivem em seus restos culturais, como os causadores da mancha-amarela da folha do trigo (Drechslera tritici-repentis) e da mancha marrom (Bipolaris sorokiniana). A canola após o milho também reduz o inóculo do fungo causador da mancha-foliar-de-diplodia (Stenocarpella macrospora).” Outra vantagem destacada pela engenheira agrônoma é que a canola não é hospedeira do nematoide-do-cisto (Heterodera glycines), “um endoparasita que ataca raízes, pois rompe o seu ciclo de vida e assim ‘maneja’ áreas com solo contaminado pelo verme na soja”, completa.
Canola pode ser considerada a “soja do inverno”?
Segundo Nadia, “pode. Um dos principais motivos para equipará-la é que a cotação da saca de 60 kg de canola acompanha historicamente à da commodity soja. Significa renda para o produtor no período do inverno. Segundo Gilberto Tomm, pesquisador aposentado da Embrapa e grande incentivador da cultura no Brasil, ‘a canola pode contribuir para a estabilidade e a qualidade da produção de grãos no Brasil’ visto que pode incrementar os ganhos da cultura principal de verão em áreas muitas vezes deixadas ociosas no inverno”, destaca.
Segundo a professora, os grãos de canola “possuem em torno de 24 a 27% de proteína e de 34 a 40% de óleo considerado nobre, rico em ácidos graxos ômegas 9 e 3, que reduzem triglicerídeos e atuam no controle da aterosclerose, rico em vitamina E, antioxidante que reduz radicais livres, e em gorduras monoinsaturadas – que reduzem o colesterol prejudicial (LDL). Entre os óleos vegetais é o que contém o teor menor de gordura saturada, que também auxilia no controle do LDL. O farelo de canola possui 34 a 38% de proteínas, por isso é considerado um excelente suplemento proteico na formulação de rações para bovinos, suínos, ovinos e aves. O óleo extraído dos grãos, apresenta, também, aplicação na áreas industrial, na fabricação de cosméticos, alimentícia (humana e animal), farmacêutica e veterinária”, pontua.
Cuidados com a lavoura
A cultura da canola é relativamente de manutenção fácil, conforme Nadia, porém exige conhecimento técnico para estabelecer a população adequada de plantas, de aproximadamente 40 plantas por metro quadrado, com espaçamento preferencial de 17 cm entre linhas e plantas bem distribuídas na linha, profundidade de 2 cm no solo. “O peso de mil sementes (PMS) da canola varia entre 3-6 g, por isso exige o uso de um ‘kit’ com disco alveolado específico e vedação adequada. O afastamento de palha na linha de semeadura facilita o plantio e evita danos causados pelo frio e geadas em estádios iniciais das plantas. A dimensão pequena da semente também implica em romper a camada compactada de solo para a deposição de fertilizantes sem que estes fiquem em contato direto com a semente”, explica.
Ela lembra ainda que a área deve ser muito bem dessecada para plantio “no limpo” e deve-se atentar para a perda de plantas por corós, grilos, formigas, vaquinhas, assim como pulgões, percevejos, traças e lagartas. “A dessecação química de plantas para colheita não é recomendada pela pesquisa. A maturação de grãos da canola é desuniforme. O método mais recomendado de colheita é o corte de plantas, quando o grão de canola atinge cerca de 32-35% de umidade, seguido de enleiramento das mesmas até a secagem natural do grão para o recolhimento e trilha. Neste estádio de corte da planta, 60% dos grãos estão pretos (terço inferior) e marrons (terço médio), e a planta está com o colmo ainda verde. A colheita convencional, quando os grãos atingem teores médios de umidade abaixo de 18%, pode ocasionar perdas maiores em razão da deiscência alta de grãos”, argumenta a professora.
A velocidade de deslocamento na colheita de canola, de acordo com a engenheira agrônoma, deve ser menor do que a usada para cereais, para reduzir o risco de perdas por debulha. Ela destaca que se deve realizar uma vedação adequada de equipamentos de transporte do grão até o armazém para evitar perdas quantitativas de grãos. Outra recomendação é que, “devido à higroscopicidade do grão é recomendada a entrega com 10% de umidade e o armazenamento com 9%, para evitar perdas de qualidade”, alerta.
Produtividade
Conforme Nadia, a produtividade média dos maiores produtores mundiais de grãos de canola variou entre 1.400 kg/ha (Índia) a 2.900 kg/ha (União Europeia), sendo a média mundial de 1.995 kg/ha. No Brasil ela destaca que a produtividade média das lavouras de 2024 foi de 1321 kg/ha, limitada principalmente por chuvas excessivas no período de semeadura, que ocorreu fora do período ideal na principal região produtora (Missões e Alto Uruguai).