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Expodireto 2025

Especial Expodireto: Agricultura impulsiona o sequestro de carbono e colhe benefícios ambientais e produtivos

Públicado em Por RD Uirapuru / Suélen Kommers

Em tempos de aquecimento global, com temperaturas médias acima de 1,5ºC, eventos climáticos severos, com semanas com temperaturas até 5ºC acima da média da estação, como as verificadas durante este verão em território gaúcho, alertam para diversas questões. Uma delas é a presença excessiva de carbono na atmosfera, que contribui para essas adversidades. O aumento do carbono na atmosfera é resultado direto do processo de industrialização e do mau uso do solo, passando pela queima de combustíveis, pela prática de queimadas da vegetação e pela perda de matéria orgânica do solo.

Entretanto se, por um lado, a agricultura tem a sua responsabilidade pela entrada de mais carbono na atmosfera, ela é também uma das principais beneficiadas quando esse elemento volta para o solo. Isso é possível através do que é conhecido como sequestro de carbono, que acontece através da fotossíntese.

“Para entender o sequestro de carbono, precisamos apontar algumas considerações. O carbono do Planeta Terra está situado em diferentes compartimentos: na atmosfera (que tem função de manter o calor na atmosfera), nas rochas (rochas carbonáticas, por exemplo), nos fósseis (recursos não renováveis usados como combustível e petroquímica, tendo o petróleo como exemplo), na biosfera, vegetação e animais (carbono na parte viva), no solo fazendo parte da matéria orgânica do solo”, explica o engenheiro agrônomo Edson Bortoluzzi, doutor em Ciência do Solo, vice-presidente da Comissão de Mineralogia do Solo da IUSS (International Union of Soil Sciences), pesquisador e professor da Universidade de Passo Fundo.

Conforme ele, o aumento do carbono na atmosfera está contribuindo para o incremento da temperatura média global, isso porque “tem origem dos outros compartimentos de carbono na Terra (exemplo: queima de combustíveis, queimadas, perda de matéria orgânica do solo) e está aumentando a temperatura média global. O aumento da concentração de carbono na atmosfera provoca o aparecimento de eventos meteorológicos extremos no globo. Os efeitos percebidos são relacionados, por exemplo, à ocorrência de chuvas de alta intensidade e duração, enxurradas, secas prolongadas, temperaturas do ar acima de 5º C em relação a normal da época, entre outros. A longo prazo temos o problema de perda de carbono do solo sem a devida formação de matéria orgânica do solo”, alerta.

O professor comenta que isso acontece porque para ganhar carbono no solo é necessário obrigatoriamente passar pelas plantas, pois o processo de fotossíntese é que capta o CO2 da atmosfera. “Nesse sentido vem a importância da agricultura, tanto quanto responsável pela perda de carbono do solo para a atmosfera quanto para retirada de carbono da atmosfera, o chamado sequestro de carbono”, salienta.

Papel da agricultura no processo

De acordo com Bortoluzzi, o sequestro de carbono é o contexto de incorporar carbono ao solo para diminuir o carbono da atmosfera. “Parece uma tarefa simples, mas não é, pois o ciclo do carbono passa pela atividade dos micro-organismos, tanto para ganho quanto para perda de carbono do solo. É um processo complexo e depende de inúmeras variáveis. Tomamos um solo sob vegetação nativa (floresta), o carbono do solo é perdido da matéria orgânica para a atmosfera em taxas similares à fixação de carbono vindas da atmosfera para o solo. Nesse contexto o teor de carbono do solo não é alterado, pois solo e planta estão no clímax. Contudo, ao usar e manejar o solo com agricultura, altera-se a vegetação, e a perda de carbono do solo é maior que os ganhos para o solo. Com vegetação nativa os teores de matéria orgânica do solo são altos e estão em consonância com a vegetação nativa. Ao mudar a vegetação aumenta-se a probabilidade de diminuir o teor de carbono do solo ao passo que aumenta os teores de carbono na atmosfera”, exemplifica.

De outro lado, quando são consideradas as boas práticas da agricultura, elas vão permitir sequestrar com maior eficiência carbono da atmosfera e mantê-la no solo. “Maior teor de matéria orgânica no solo, maior será a fertilidade e melhor serão as propriedades físicas e biológicas do solo. Um primeiro exemplo é que, quanto maior o teor de matéria orgânica, menor o uso de adubo, principalmente o nitrogenado. Isso dá uma economia no custeio da lavoura, principalmente de trigo e milho. Ademais, usando-se rotação de culturas, com fixação biológica de nitrogênio, esse aspecto é melhorado com acréscimo não somente de carbono ao solo, mas de nitrogênio atmosférico. Além disso, a matéria orgânica fornece às plantas outros elementos nutrientes, como os micronutrientes. É facilmente perceptível que lavouras com maior teor de matéria orgânica têm maior disponibilidade de macro e micronutrientes, o que permite maiores produtividades e menores custos com adubo. A matéria orgânica está ligada intimamente com a qualidade física do solo, maior infiltração de água da chuva e maior retenção de água disponível para as culturas. Também auxilia na resistência à compactação”, destaca o professor.

Práticas agrícolas que favorecem a perda de carbono do solo

Conforme o pesquisador, existem algumas práticas que são mais propensas a resultarem em perda de carbono do solo para a atmosfera. São elas:

– queimadas: maneira mais intensa de perda de carbono para a atmosfera;

– solos descobertos após a colheita: para sequestrar carbono ao solo é preciso plantas vivas e produção de palha, caso não haja isso não haverá fotossíntese e a retirada de carbono da atmosfera não ocorre, tampouco a entrada de carbono no solo;

– uso de culturas comerciais sem intercalar com culturas de cobertura (rotação de culturas): isso, porque culturas, tais como a soja e o trigo, foram melhoradas geneticamente para produção de grãos e óleo e não para a produção de palha (rica em carbono) e incorporadas ao solo;

– movimentação de solo por meio da mecanização, arado, grades, sulcadores, subsoladores: movimentam solo e favorecem a perda de carbono;

– compactação do solo: diminui as trocas de gases e água do solo com a atmosfera;

– uso de combustíveis fósseis na agricultura: consumo de energia desses materiais favorece a perda de carbono para a atmosfera;

– monoculturas em toda a área: não respeitando as áreas de proteção de nascentes, córregos e de solos frágeis;

– superlotação de animais por área, pouco pasto.

Como a agricultura pode auxiliar a sequestrar carbono da atmosfera

Para Bortoluzzi, existem quatro formas principais de contribuição da agricultura na retirada de carbono da atmosfera. Confira a lista do professor:

1. Diversificação de culturas comerciais conjuntamente ou em rotação com culturas de cobertura. As culturas de cobertura têm características complementares às comerciais e para seu uso devem ser observadas quanto às características da espécie e de cultivo (ciclo, época de plantio, susceptibilidade a doenças e pragas, custo da implantação, benefícios de quantidade e qualidade de palha). Uma das culturas comerciais que é benéfica para sequestro de carbono e se encaixa nessa descrição é o milho, pois tem grande quantidade de palha e raízes agressivas. Essas características são desejáveis para as culturas de cobertura ditas intermediárias, tanto de inverno quanto de primavera, favorecem o sequestro de carbono ao solo (ex: milheto, nabo, trigo mourisco, triticale; e as espécies que fixam nitrogênio, tais como ervilhaca, mucunas, crotalárias, entre outras). Existe uma gama de espécies com esse potencial de uso que devem ser estudadas para cada necessidade da propriedade; ressalta-se que a rotação de culturas deve ser realizada em consonância com o objetivo do produtor rural e as especificidades da região, levando-se em conta principalmente o clima e o solo. Planejar a propriedade para ter 100% da área coberta com palha de diferentes culturas e sempre com plantas vivas é fundamental como estratégia de mitigação de emissão de gases e sequestro de carbono no solo.

2. Planejar a frota agrícola a fim de evitar uso desnecessário de máquinas e implementos que são pesados e que, em operação, compactem o solo ao passo que movimentam a superfície sem necessidade. O momento da operação também é fundamental, isto é, trabalhar com solo úmido e molhado, condições logo após uma chuva, favorece a compactação do solo.

3. Usar, no contexto da propriedade rural, os preceitos da integração lavoura/pecuária/floresta, adequando cada tipo de solo e sua aptidão. Isso significa que a produção de grãos somente será feita em solos profundos e com bom teor de matéria orgânica, enquanto os solos rasos, que são geralmente pedregosos, e aqueles que são arenosos, deveriam ser usados preferencialmente para outras atividades, tais como pastagens e reflorestamento ou mesmo não usados em agricultura. Ressalta-se que a produtividade das culturas está diretamente relacionada ao tipo de solo: em solos ricos e profundos com alto teor de matéria orgânica, maiores são as produtividades das culturas otimizando os custos.

4. Planejamento correto de estradas e talhões de lavoura de forma a manejar o fluxo de água da chuva dentro da propriedade é fundamental para auxiliar na manutenção dos teores de carbono do solo e conservar a água na lavoura. Vale ressaltar que água é um insumo. Isso ajuda também no sequestro de carbono da atmosfera, pois se produz mais palha e cobertura de solo nesse sistema. A construção de estradas internas, vicinais e municipais bem localizadas, acompanhado de sistemas de terraços nas lavouras e vertedouros com escoamento controlado, áreas de preservação e matas ciliares são também práticas de engenharia que ajudam no bom funcionamento da propriedade como um todo.

Aumento do potencial de sequestro de carbono

Além de favorecer o meio ambiente e as condições de vida no Planeta, práticas que levem ao sequestro de carbono da atmosfera têm papel fundamental também no aumento do potencial da agricultura. De acordo com o professor, existem hoje cerca de 30 milhões de hectares de áreas agrícolas degradadas e com potencial de serem trabalhadas, recuperadas e contribuírem para o sequestro de carbono da atmosfera. “Para isso, políticas agrícolas de estado e técnicas deverão ser construídas, divulgadas e os atores formados para essa finalidade. Poderíamos dobrar a área de grãos com essa perspectiva. E isso sem a necessidade de adentrar em biomas. O uso do solo com reflorestamento, onde as plantas fixam carbono da atmosfera e depois se usa a madeira para construção de casas, móveis e estruturas, podem contribuir para o sequestro de carbono. Isso, porque além das árvores permitirem um sequestro de carbono ao solo, a madeira aprisiona o carbono a longo prazo”, argumenta.

Para o professor, o setor agrícola “tem uma enorme responsabilidade no processo de sequestro de carbono da atmosfera. No passado contribuiu para a diminuição do carbono do solo e aumento do carbono da atmosfera, atualmente é um setor vulnerável e dependente do tempo e clima, e é afetado diretamente pelo aquecimento global (vide secas, enxurradas, temperaturas elevadas). Particularmente, aos técnicos e agrônomos, atualmente não basta receber uma formação de ensino pautada somente pela maior produtividade. A a atividade agrícola cada vez mais está ligada a um complexo processo global, incluindo os mercados mundiais, o clima global e os recursos cada vez mais escassos”, destaca o professor.