Especial Expodireto: Uma nova realidade depois da irrigação
Nos últimos anos o Rio Grande do Sul vem sofrendo com uma série de eventos climáticos extremos que têm prejudicado as lavouras cultivadas no estado. Nos últimos anos foram três de estiagem e um de enchentes. E, este ano, novamente a estiagem está causando problemas nas culturas de verão. Em parte do estado as perdas já estão consolidadas e não há previsão de chuvas em quantidade adequada para amenizar a situação.
É por isso que cada vez mais produtores têm procurado alternativas para garantir produtividade e renda. Uma dessas alternativas tem sido o investimento em irrigação. Este é o caso de João Finco, produtor rural no interior do município de Casca. Há dois anos ele resolveu investir em irrigação o que possibilitou que garantisse uma ótima lavoura de milho, enquanto houve tantas perdas no estado.
Dos 30 hectares do sítio onde mora e atua, 10 estão cobertos pela irrigação. “Plantamos soja e milho, mas agora só o milho está irrigado. A gente tem 30 hectares, mas só 10 foi colocado irrigação”, conta o produtor. A decisão veio depois de enfrentar perdas por três anos consecutivos em virtude das poucas chuvas. “O problema que nos levou a buscar a irrigação é o tempo, é o clima. Todos os anos tinha um pouco a falta de chuvas. Este ano a gente irrigou 10 noites e está o milho 100%, se pagou acho que em torno de 40% do investimento”, comemora.
Mas Finco foi adiante, e está tornando a propriedade sustentável. Além de produzir soja e milho, ele e a esposa também têm criação de suínos, que contribuem para a adubação da lavoura com os dejetos. “O sítio a gente tem quase completo, porque do suíno vai o dejeto adubo quase a gente não bota, a gente coloca o desejo de suínos, e a água quando precisa. Ficou com a mesma bomba, com o mesmo canhão”, comenta.
A ideia, que teve auxílio na execução fornecida pela Emater, foi aproveitar e mesma bomba para adubação e fornecimento de água, com o produtor explica: “a gente fez um depósito de água encostado no depósito de desejos dos suínos e colocamos a bomba no meio, então quando você quer uma coisa tu toca e quando quer a outra coisa, e funciona muito bem”, salienta.
Antes e depois da irrigação
Nos anos de estiagem, Finco conta que teve prejuízo. Segundo ele, parte da lavoura resultou em perda do investimento e outra parte apenas empatou com os custos. “Nos anos de seca, algumas lavouras perdermos dinheiro, outras empatou e agora com a irrigação deu certo e a ideia é botar mais, vamos ver se ano ano colocamos mais uns pedaços”, projeta. Sobre o antes e o depois da irrigação, ele afirma que foi uma mudança na realidade: “não tem nem comparação. Gasta um pouco de energia, mas a gente tem placa solar que ajuda a baixar o custo da energia”, salienta.
A ideia de implantar a irrigação começou ainda na colheita do ano de 2023, quando então pediram auxílio para o técnico na Emater e começaram a entrar em contato com as empresas que realizam a instalação. Assim, em 2024 deram início ao projeto de irrigação. Contudo, o resultado mesmo veio este ano. “Este é o segundo ano que a gente tem irrigação. Ano passado não deu tão certo, porque começou chuva demais, a água incomodou bastante, mas esse ano deu certo”, conta.
Os bons resultados do sítio de João Finco têm sido exemplo para outros produtores da região. O caso deles foi apresentado em um dia de campo. Além disso, agricultores da região visitam o sítio para conhecer de perto o investimento que deu certo. “A gente indica pra outras pessoas, quem pode, que tem água, porque tem que ter bastante água, que coloquem. Até tem muita gente que vem aqui ver como funciona, tivemos um dia de campo pra mostrar pro pessoal. Acho que mais de 15 propriedades da região estão colocando agora, olhando nosso projeto, nossa experiência”, destaca Finco. E finaliza: “vale a pena a irrigação, foi um dos melhores investimentos que já fizemos.”
Elevando o potencial de produção
“A irrigação é uma ferramenta que contribui para a agricultura e também para a pecuária, porque permite, dessa forma, primeiro uma estabilidade de produção e, num segundo momento, uma possível elevação do potencial de produção e nesse sentido pode contribuir com a região e com o estado para dar mais sustentabilidade econômica aos empreendimentos agrícolas e também diversificar os tipos de produtos agrícolas a serem, considerando que em alguns cultivos é necessário um manejo mais direto, mais constante e dessa forma se viabiliza a produção de algumas culturas através da irrigação”, afirma o gerente regional da Emater, Gustavo Bonotto.
Para o engenheiro agrônomo, a melhoria das condições de produção é o melhor efeito em uma área irrigada. “A consequência da instalação destes equipamentos, desse sistema em áreas mais abrangentes é uma elevação da produção e, além de uma elevação, uma estabilidade ao longo dos anos e isso contribui para a geração de renda, para a geração de emprego e por consequência para o desenvolvimento socioeconômico da região e do estado”, salienta.
Mas o gerente regional alerta para alguns cuidados, sobretudo sobre a análise da área onde existe a intenção de instalação do sistema de irrigação. “A adesão a essa tecnologia depende de diversos fatores. Ela precisa enfrentar primeiro uma avaliação técnica. Não são todas as áreas que são passíveis de irrigação, haja vista a necessidade de disponibilidade de água e energia elétrica que, hoje, tecnicamente seriam os maiores gargalos a serem superados”, explica.
Com isso, ele lembra que vai além a decisão de implantar ou não o sistema: “não é somente uma decisão de fazer a irrigação, mas sim analisar se ela preenche essas necessidades técnicas pra se fazer. Também é importante considerar que se trata de um investimento bastante considerável, que precisa ser analisado com responsabilidade pelos agricultores na busca da viabilidade econômica. E muito embora nós tenhamos sofrido sim com diversas estiagens e, além disso, uma irregularidade de precipitações, ainda é preciso que o projeto seja viável economicamente e, pra isso, é necessário que se realize um estudo com relação ao investimento necessário pra se fazer o custeio que vai ser necessário pra colocar o sistema em operação e o quanto isso vai oferecer de rendimento maior aos cultivos agrícolas”, avalia.
No entanto, reconhece que a tecnologia tem se popularizado e tido uma procura cada vez maior. “Entendo que isso é uma cultura que também está sendo cada vez mais popularizada, ou seja, está se tornando cada vez mais comum o ato de irrigar, e isso vai tornando mais familiar aos produtores e vai aumentando o número de pessoas que aderem a essa tecnologia”, comenta o engenheiro agrônomo.
Política pública para a irrigação
Atualmente o governo do estado está com um programa que auxilia os produtores gaúchos que querem investir em irrigação. Esta é uma das ações que estão sendo executadas dentro do Supera Estiagem, projeto incluído no Plano Rio Grande, programa de reconstrução, adaptação e resiliência climática do Rio Grande do Sul.
“Estamos no momento na fase 2. Tivemos a fase 1, que foram 3 meses de experimentação, para ver como o programa ia ser aceito pelos produtores, onde era 20% do valor do projeto que o produtor instalava de irrigação na sua propriedade, até o limite 15 mil reais. Foi uma experimentação que deu muito certo”, explica o secretário estadual de agricultura, Clair Kuhn.
O passo seguinte foi dado em março de 2024, quando então foi lançada a fase 2, “que, basicamente, é o mesmo programa, só que ampliando o teto por onde o governo do estado, através da Secretaria de Agricultura, faz uma ampliação de valores até o teto máximo. Nessa fase em que nos encontramos agora, a fase 2, são 20% do valor do sistema de irrigação que o produtor implantar na sua propriedade, depois de fiscalizado e aprovado, ao final ele recebe os 20%, a fundo perdido, diretamente na conta bancária que o produtor indicar para receber o recurso, até o teto de 100 mil reais”, salienta Kuhn.
Conforme o secretário, os projetos encaminhados irão “fazer frente a uma demanda de mais de 22 milhões de reais, por parte do governo do estado, para fazer essa subvenção aos produtores. Já começamos pagar projetos da fase 1 e também já estamos pagando os projetos da fase 2. Pagamos nos últimos dias alguns produtores já que receberam 100 mil reais a fundo perdido. Vou exemplificar como funciona: então é 20% do valor do projeto a ser escolhido pelo sistema de irrigação que o produtor implantar.
Num dos exemplos, se o produtor botar um projeto de 100 mil reais, recebe 20%, que equivalem a 20 mil reais a fundo perdido. Se o produtor investir um projeto de irrigação num sistema, por exemplo, de pivô, que vai lá irrigar 10 hectares, custa 500 mil reais, nós vamos passar 20%, que equivale a 100 mil reais a fundo perdido, diretamente ao produtor. Se o projeto for de 1 milhão de reais, ele continua recebendo o teto, que é 100 mil”, exemplifica.
que é 100 mil”, exemplifica. O Programa de Irrigação é destinado a qualquer produtor rural e não é atrelado a nenhum financiamento por instituição de crédito, podendo o produtor fazer investimento próprio ou procurar a linha de crédito que melhor atender os seus interesses para a instalação do sistema de irrigação, que podem ser: aspersão (pivôs, carretel, simples); localizada (gotejamento/microaspersão); sulcos (várzeas para milho e soja); e reservatórios de água para fins de Irrigação.
Procura e participação
O Programa de Irrigação já recebeu mais de 670 projetos, somando a fase 1 da política pública. Juntos, os projetos representam um potencial de quase 9 mil hectares a mais de área irrigada e um benefício do governo do estado de cerca de R$ 22 milhões pagos direto ao produtor rural, além de mais de R$ 170 milhões em investimentos pelo produtor para a instalação dos sistemas de irrigação. “Esta é uma das grandes ferramentas que nós, o estado, achamos pra incentivarmos o agricultor, lá na frente, a buscar esse projeto de irrigação pra não ter mais aquela dependência da chuva, somente vindo quando São Pedro quiser. Nós temos que ter a garantia na nossa propriedade, a segurança de termos uma renda mínima. Pra ter renda mínima tem que ter produção de grãos, minimamente, com uma produtividade garantida, mas isso só faz se tiver irrigação”, comenta o secretário.
Ao todo no Rio Grande do Sul, são 172 municípios que já enviaram projetos. Na fase em vigor, que está com edital aberto, a região das Missões é a que mais enviou, representando 34% do total recebido. Em segundo lugar no envio de número de projetos está a região de Planalto Médio (27%), seguido da Campanha (17%), Central (15%), Serra (4%) e outras regiões (3%).
Entre a finalidade dos projetos, a irrigação de grãos, como soja, milho e outros, lidera com 54% dos projetos apresentados. A pastagem/pecuária representa 17%, seguida pela fruticultura (16%), olericultura (13%) e outros (2%).
Participação da Emater
O programa estadual está sendo operacionalizado pela Emater. Conforme Bonotto, é muito interessante para o produtor acessar esses recursos. “Em relação às políticas públicas, considero que as que existem hoje são interessantes e já viabilizam muitos projetos e servem como estímulo aos produtores rurais pra fazer esse tipo de investimento”, comenta.
De acordo com ele, o valor repassado pelo governo realmente auxilia na implantação de novos projetos de irrigação. “É um auxílio bastante significativo que, com certeza, viabiliza muitos projetos e é ainda um estímulo, um incentivo pra que essa tecnologia se torne cada vez mais popular e, assim sendo, ela possa estar acessível ao maior número de produtores. É importante mencionar que este programa também flexibiliza para projetos de pequeno porte, como a burocracia para reconhecimento dos açudes já existentes, como a outorga d’água necessária pra se fazer, também estabelece um fluxo que permite o produtor construir novas estruturas necessárias tanto de captação quanto de açudagem para que se viabilizem esses projetos”, salienta.
Como participar do programa estadual
De acordo com o secretário Clair Kuhn, “o governador Eduardo Leite e seu vice Gabriel, dentro do programa de reestruturação do estado, dentro do Plano Rio Grande, pediu pra que a gente agilize os projetos. O governador disponibilizou esses recursos que estão já na conta do Fundo de Recursos Hídricos, à disposição. E nós estamos então fazendo da seguinte forma: o produtor faz o seu projeto, encaminha para a Secretaria da Agricultura, pelo site da secretaria, a nossa equipe analisa e após analisar dá o ok para que o produtor possa implementar o projeto. Quando implementado o projeto, o produtor diz para nós que está apto a ser fiscalizado, nós vamos lá, vamos fiscalizá-lo, se estiver irrigando uma área nova, essa também é uma das grande capacidades do programa, ele tem que irrigar uma área nova, nós fizemos em seguida, num prazo de dois, três meses o pagamento do valor correspondente aos 20%, até o teto de 100 mil, conforme o projeto encaminhado”, explica.
Um dos pontos destacados pelo secretário é que o programa não obriga a buscar dinheiro numa determinada agência bancária. “O produtor pode buscar recurso onde ele achar o juro mais compatível, a proposta mais compatível com o seu bolso, junto a agência bancária que ele quiser. Também se quiser fazer com recursos próprios ele pode alavancar dos recursos próprios e participar da mesma forma, não é necessário buscar um banco”, argumenta.