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Cidade

Passo Fundo comemora 167 anos hoje: cidade se destaca como polo em diversos segmentos

Públicado em Por RD Uirapuru / Mateus Miotto

Pensar a história de Passo Fundo leva sempre a uma questão: quem foram os atores que começaram tudo? Mesmo que se tenha o nome de Manoel José das Neves, o cabo Neves, como primeiro povoador do município, e Joaquim Fagundes dos Reis como primeiro governante, essa história começou bem antes, ainda com os povos originários, que por aqui já estavam em tempos remotos. “Se a gente for pensar a história do nosso município, não basta a gente viver, estar aqui. É necessário questionar os lugares, se perguntar qual a origem da nossa cidade. E pensar sobre a história inicial do nosso município exige que se faça um esforço de nos reportar a um tempo muito distante do tempo presente e nos distanciarmos também do nosso imaginário, do nosso contexto atual, nosso contexto urbano, nossa configuração arquitetônica, social”, destaca o professor de História, Roberto Sander.

É preciso lembrar que região já era habitada, por exemplo, no período de atuação dos jesuítas no Brasil, o que aconteceu por volta dos anos 1500. Passo Fundo fez parte da redução jesuítica de Santa Tereza, o que, por si só, já prova que a região já era habitada muito antes da chegada do cabo Neves e sua família, o que só aconteceu três séculos depois, entre 1827 e 1828.

“Pensar sobre o nosso passado exige a sensibilidade de compreender o povoamento inicial desse nosso território e esse povoamento inicial se dá numa condição diferente dessa urbana, dessa verticalidade que nós temos hoje. É interessante pensar e citar que a obra o Fernando Miranda e da professora Ironita Machado, Passo Fundo Presentes da Memória, em que diz que enquanto o Império Romano estava ruindo, a região de Passo Fundo já estava sendo habitada, ou seja, eu estou falando do século V. O nosso território é ocupado, povoado já há um bom tempo”, pontua o professor.

Para que seja possível fazer essas afirmações, historiadores e arqueólogos se utilizam dos vestígios deixados por quem viveu no passado. “Para nós, historiadores, é muito valioso, é muito necessário para que a gente possa construir a nossa literatura, a nossa história com um pouco mais de sustentabilidade, nos utilizarmos das fontes históricas, ou seja, daqueles recursos, dos vestígios, materiais ou não, deixamos pelas sociedades do passado, intencionalmente ou não. E para que hoje a historiografia nos diga que o território que hoje é Passo Fundo já está sendo povoado há centenas de anos, há milhares de anos, nós precisamos dos vestígios que os nossos coirmãos arqueólogos nos trazem”, explica Sander.

 

Povos originários X colonização europeia

A origem de Passo Fundo não está desvinculada da história do Brasil. É importante lembrar que tudo que aconteceu em nível nacional afetou o desenvolvimento do município. Dessa forma, a influência da colonização europeia foi também sentida por aqui. “Após uma ocupação inicial dos povos originários, que popularmente chamamos de povos indígenas, nós temos aí todo um processo vinculado à colonização europeia. Quando falamos em colonização podemos pensar sim que Passo Fundo estava dentro desse contexto macro da história das políticas de colonização, de mercantilização que se desenvolveram na Europa, sobretudo nas terras do Novo Mundo. Tivemos aqui, por exemplo, a ocupação, o desenvolvimento das atividades dos povos jesuítas”, comenta o professor. De acordo com ele, Passo Fundo fez parte sim do contexto histórico de catequização, “desse contexto histórico todo de conversão da cultura originária à cultura europeia”, completa.

 

Principais aspectos
Para Sander, existem pelo menos quatro aspectos históricos bastante relevantes quando o assunto é o “surgimento” de Passo Fundo. “O primeiro é a ocupação pelos povos primitivos, e aí a gente conta com os vestígios arqueológicos na região do Povinho Velho. No segundo momento nós temos o movimento de catequização, uma política colonialista desenvolvida pelos povos colonizadores, sobretudo pelos jesuítas. No terceiro momento nós temos um aspecto importante que é o Bandeirismo, que são as bandeiras de expansão e que aqui foram marcadas pelas bandeiras de captura de nativos para a escravização. E um aspecto que nos aproxima bastante dessa história, digamos assim, mais didática, mais escolar que, geralmente, nas escolas a gente trata da origem de Passo Fundo com a questão do tropeirismo, das tropas”, argumenta.

 

Cabo Neves e Joaquim Fagundes dos Reis

Os dois nomes que despontam como os precursores do surgimento de Passo Fundo são os atores que surgiram após essa primeira ocupação do território brasileiro e, em recorte, passo-fundense. “Em sequência à essa fase inicial de ocupação, povoamento do território, nós temos a presença, vamos dizer assim, do homem branco ou, sobretudo, dos militares, que, a partir do século XIX, com as tropas, esse movimento do tropeirismo, nós tivemos nessa região aqui um movimento, um fluxo maior. Passo Fundo começa a se constituir nesse espaço de passagem das tropas. E aí entramos numa seara, de certa forma, que movimenta, que nos faz pensar quem foi o primeiro povoador: é cabo Neves, é o Fagundes dos Reis?”, comenta Sander.

O que mostram os registros é que em 1827 cabo Neves fez uma solicitação para estas terras. “E assim se dá a ocupação, esse povoamento mais contemporâneo. Então, temos como marco inicial desse povoamento a região onde hoje está a praça Tamandaré, a igreja Matriz. Por volta de 1827 nós já temos a formação dos primeiros fogões, ou seja, das primeiras residências aqui em Passo Fundo, porque em 1827 nós já temos, pensando num contexto nacional, num contexto mais amplo, esse povoamento. Se a gente observar de forma mais ampla, já temos aí um contexto de urbanização, de independência extremamente recente. Há um espírito de modernização, há um espírito de autonomia política, um movimento de fortalecimento dos aspectos econômicos, de formação da estrutura econômica, da nossa identidade cultural e Passo Fundo se envolve dentro desse contexto. As terras precisam ser povoadas, o território precisa ser ocupado. E o cabo Neves dá início a esse povoamento, digamos assim, contemporâneo aqui no nosso território, porque ele já vem com as sua família, com seus escravos”, ressalta.

Mais tarde é que aparece a figura de Joaquim Fagundes dos Reis “como nosso primeiro, digamos assim, líder político, nosso primeiro líder administrativo. E esse momento da presença de cabo Neves e do Joaquim Fagundes dos Reis, precisa ser visto também dentro de um coletivo. Você tem aí os caboclos que estão lidando com a erva-mate, que ainda nas redondezas tem a presença muito forte dos povos originários, você já tem aqui a figura do escravo. Nós podemos dizer que Passo Fundo inicia esse movimento de povoamento mais contemporâneo, esse movimento de urbanização, a partir do século XIX. Sobretudo, Passo Fundo inicia seu povoamento pela região do Boqueirão, dessa parte da praça Tamandaré, igreja Matriz para o Boqueirão”, enfatiza.

 

O ano de 1857

Os registros do município apontam como data de aniversário 7 de agosto de 1857. Porém, o ato emancipatório, que desvinculou Passo Fundo de Cruz Alta, aconteceu ainda em janeiro daquele ano. A hipótese aceita para o 7 de agosto é porque foi neste dia que aconteceu a posse dos primeiros vereadores o que configuraria, de fato, Passo Fundo com “autonomia” administrativa. “Acredito que a data de 7 de agosto de 1857 é lembrada como aniversário do município por essa questão, por ser a data, o momento em que os primeiros vereadores de Passo Fundo tomam a posse. E, a partir de então, a partir da emancipação, de 1857, Passo Fundo entra dentro desse movimento, vai participar efetivamente desse movimento em âmbito mais macro, em que o Brasil está em movimento, está buscando uma urbanização”, avalia o professor. É a partir de 1857 que se vê um crescimento urbano do território, “a formação das nossas principais ruas é desta época. Nós temos a formação da rua Uruguai, da rua Moron, expansão da rua Paissandu, ocupação e povoamento de territórios que até então não estavam sendo povoados. A partir de 1857 nós vemos Passo Fundo participar desse contexto, desse movimento de urbanização, de crescimento urbano”, argumenta.

 

Modernização com a chegada da ferrovia

Ainda nesse movimento de urbanização registrado a longo do século de XIX, foi a chegada da ferrovia, em 1889, o grande diferencial que possibilitou a modernização de Passo Fundo. “Nós temos já no final do século XIX a chegada de um elemento dinâmico e fundamental pra configuração urbana do nosso município aqui de Passo Fundo que é a chegada da estrada de ferro. A chegada da estrada de ferro se dá a partir de 1890, 1889, final então do século XIX, e reconfigura a fotografia da nossa cidade. Essa expansão urbana, o povoamento, para essa região que hoje nós chamamos de centro de Passo Fundo ela se dá, sobretudo, pela estrada de ferro. A estrada de ferro é determinante para a configuração urbana, para a dinâmica econômica do município que nós temos hoje, esse centro comercial. A região central de Passo Fundo é basicamente formada pela dinâmica da estrada de ferro, pela implantação da estrada de ferro”, afirma.

 

A “Belle Epoque” de Passo Fundo

Conforme o professor, esse momento vivido pelo município no final do século XIX e início do século XX pode ser considerado a “Belle Epoque” de Passo Fundo, fazendo referência à expressão francesa que representa o movimento cosmopolita vivido na Europa. “Podemos dizer que o início do século XX, citando mais uma vez a historiografia e a literatura, a nossa história local, os historiadores locais, nos dizem que é a bela época do nosso município. É o período que vai ter o calçamento de algumas ruas, formação de algumas praças, você vai dar nome às ruas daqueles representantes simbólicos da República, você vai ter a iluminação da cidade, você tem a chegada da ferrovia. Toda essa dinâmica, toda essa mudança contextualiza essa fase inicial no nosso município”, ressalta.

 

Movimento republicano
O professor chama também a atenção para o vínculo que Passo Fundo teve, na fase inicial, com o movimento republicano que acontecia nacionalmente. “Hoje o nome das nossas praças, de ruas, lá no início do século XX, esteve integrado a esse movimento republicano e a ideia de república traz consigo esse propósito de modernização, esse propósito de desenvolvimento econômico. Em Passo Fundo, nesse período, é fortíssima a economia da madeira, os frigoríficos. Logo em seguida nós temos o advento da triticultura. Mas Passo Fundo vive, respira, no início do século XX, final do século XIX, esses ares republicanos, a política republicana, a modernização, a industrialização. A chegada da estrada de ferro representa muito bem isso. Há uma nova Passo Fundo, podemos dizer assim, tomo a liberdade de definir dessa forma”, avalia.

As mudanças começam a ser vistas em toda a cidade. “A partir do século XX nós temos, com a chegada da estrada de ferro, uma nova Passo Fundo. A intenção de uma Passo Fundo moderna, de uma Passo Fundo urbanizada, calçada, com praças. É importante a figura, esse movimento republicano ser visto aqui em nossa cidade neste momento inicial da sua formação, onde posso dizer assim, nos primeiros 50 anos pós-emancipação. E aí você vê lá do início do século XX a formação das ruas que até hoje estão aí: rua Tiradentes, rua Silva Jardim, Benjamin Constant. Nós temos a praça central, praça Marechal Floriano. Isso é importante para nós, que moramos em Passo Fundo, e queremos entender a nossa história, pensar sim o nome das nossas ruas, o nome das nossas praças para que a gente compreenda o contexto histórico de formação de nosso município”, destaca.