Para psicanalista, na migração saudável a pessoa soma a nova realidade com as experiências antigas
A vinda de imigrantes ao Brasil data desde os tempos de colônia. De acordo com o IBGE, entre 1500 e 1991 o país recebeu cerca de 100 mil imigrantes, que vieram em busca de oportunidades e uma vida melhor. Os primeiros a desembarcarem foram os turcos, árabes, italianos, portugueses, espanhóis, japoneses e alemães. Muitos deles prosperaram e ajudaram a construir a nossa história. Hoje, estima-se que o Brasil possua cerca de 700 mil imigrantes, um pouco mais do que os Estados Unidos, Canadá e Austrália. Em Passo Fundo há uma grande comunidade de estrangeiros, principalmente de senegaleses, com mais de 300.
O programa Emoção, afeto e comportamento da última terça-feira (07) trouxe ao debate a imigração e os desafios emocionais de viver em outro país. O psicanalista José Júlio Abuchaim explicou que as pessoas que migram por opção têm mais facilidade em se adaptar, elas têm uma visão mais realista da situação e um domínio sobre ela. Já aquelas que se mudam por necessidade, devido a uma guerra ou fracasso econômico do local onde vivia, sofre mais.
O Dr. destacou que, quando a pessoa faz uma migração, o saudável é somar a realidade nova com as experiências antigas para manter-se emocionalmente bem. Para os que já migraram a recomendação é retomar o contato com as raízes e os que estão por migrar pensar que esse passo é uma extensão da vida e não um rompimento.
O psicanalista Abuchaim destacou também a adaptação das primeiras gerações de imigrantes do Brasil. Muitas pessoas, como defesa às emoções, bloqueavam o passado. Por telefone, o diretor da Rádio Uirapuru, Jerônimo Paiva Fragomeni, compartilhou a história do avô, que no início do século passado, por extrema necessidade, migrou da Itália para o Brasil. Havia muita pobreza na região onde morava, na Calabria. Contou que no Porto de Gênova se separou do irmão e a família que permaneceu na Itália ficou sem saber para onde ele tinha ido.
Fragomeni contou que o avô chegou a escrever carta para se comunicar com os pais e parentes, mas nunca recebeu retorno, então criou um bloqueio em relação ao passado. Disse que o avô não tocava no assunto, nem mesmo depois de idoso. Salientou que o pouco que conheceu dele lhe parecia uma pessoa de certa forma triste, com peso nos olhos, e agora compreende que isso tem relação com o rompimento que se viu obrigado a fazer com o seu passado.