Legislativo concede honraria à Romaria e Festa de São Miguel
Em Sessão Solene realizada no Plenário Sete de Agosto, da Câmara Municipal, o Parlamento conferiu reconhecimento à Romaria e Festa em honra a São Miguel Arcanjo com a entrega da placa de Honra ao Mérito na noite desta quarta-feira (15). A solenidade foi solicitada via Requerimento pelo vereador Rodinei Candeia (PSL), em virtude dos 150 anos da realização do evento. A cerimônia foi realizada mantendo as ações preventivas de segurança sanitária, com a obrigatoriedade do uso de máscara e álcool gel, e o distanciamento social, com a presença de público restrito.
Esta Sessão Solene contou com a presença do vice-prefeito de Passo Fundo, João Pedro Nunes e da secretária municipal de Cultura do Município, Miriê Tedesco, representando o Executivo. Também, representando a Arquidiocese de Passo Fundo, o padre Carlos Jaroceski.
A solenidade também contou com a participação do representante da família Isaías, que deu início à Romaria, sr. Odorico Ribeiro.
No início da Sessão, foi ressaltado um aspecto presente na justificativa do Requerimento, que trata de a Romaria a São Miguel ser considerada uma das mais antigas a ser realizada no Rio Grande do Sul. Também foi salientada a aprovação de projeto que a declara como bem integrante do Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Passo Fundo.
A vice-presidente da Câmara, vereadora Janaína Portella (MDB), comandou a solenidade e destacou a importância da honraria que o Legislativo concedeu à Romaria.
Essa oportunidade serve para que possamos referendar a honraria à Romaria de São Miguel por sua história e cultura, e a importância do movimento de fé mantido pela comunidade durante esses 150 anos”, pontuou.
Em seu espaço na tribuna, o proponente da homenagem, vereador Rodinei, reforçou que a Romaria e Festa de São Miguel passou a ser considerada Patrimônio Cultural Imaterial de Passo Fundo, após aprovação de proposição de sua autoria, frisando sua relevância cultural, religiosa e social.
“Há 150 anos esta manifestação de devoção e alegria se realiza em nossa cidade, sendo uma das duas festas religiosas mais antigas do Estado, junto com a de Nossa Senhora dos Navegantes. É um destacado patrimônio cultural imaterial, que forma um conjunto com o patrimônio cultural material formado pela capela, já tombada como bem histórico do município em 1991, e a estátua missioneira de São Miguel Arcanjo, que não apenas orna o espaço, mas é elemento chave desta rica manifestação cultural e religiosa da história gaúcha e da história dos bravos negros que formaram o nosso povo”, enalteceu.
Rodinei ainda fez um resumo sobre as origens da romaria, salientando seu viés religioso e sua representatividade cultural e social.
“A festa e a procissão têm a marca na oralidade na sua transmissão, sendo que somente muitas décadas depois de iniciada os registros escritos passaram a trazer elementos dessa narrativa, que é um legado de fé, de coragem e de superação. Não por acaso, são as mesmas características atribuídas ao Arcanjo São Miguel pela tradição religiosa judaica, cristã e islâmica”, observou.
Ao final de sua fala na tribuna, após enfatizar a importância da família Isaías na perpetuação da Romaria, o vereador resumiu o intuito do reconhecimento ao evento.
“São 15 décadas de história da Romaria e Festa que contemplam mudanças na programação, na estrutura da romaria, na vinculação religiosa institucional, nas formas de sociabilidade, nas demandas e relações de fé ao santo guerreiro, que constituem um bem significativo para a comunidade local e regional, abrangendo variadas classes sociais, grupos, num maravilhoso sincretismo religioso que muito bem representa o nosso país. O que move a festa é a fé de que São Miguel defenderá e protegerá contra a insegurança, as tensões e conflitos, os problemas de saúde, os desafios cotidianos e a salvação eterna”, concluiu.
O padre Carlos Jaroceski, antigo pároco da Paróquia São Vicente de Paulo, também foi à tribuna. Ele sublinhou a importância em manter as raízes da romaria e cuidar da festa de forma a que siga cada vez mais forte junto à comunidade. Mencionou a família Isaías reforçando o seu papel no início e consolidação da Romaria. Ele também sintetizou a representação do evento junto à população.
A Romaria de São Miguel pertence ao povo. Tivemos a alegria de contar com o reconhecimento do Poder Público. A Romaria é diferenciada por ir além da esfera religiosa. Essa homenagem é muito significativa para toda a comunidade, muito além da Igreja Católica, mas para o povo simples o povo negro, o povo mais humilde”, pontuou.
Com a entrega da placa realizada, concretizando o reconhecimento, Odorico Ribeiro, representante da família Isaías, fez uso da tribuna.
Ele agradeceu ao Legislativo pela honraria concedida e ratificou a honra de representar uma história de dois negros que lutaram na guerra e voltaram superando a descrença de não voltarem. Lembrou que muitos negros e escravos foram lutar com esperança de voltarem vivos e serem libertados, mas que não puderam realizar seus sonhos. Confessou estar emocionado com a oportunidade citando parentes como Almerinda de Jesus Isaías, sua avó, e sua mãe, Djanira Isaías Ribeiro, que fundou o Grupo Alforria, e foi figura representativa para a cultura local.
Odorico ainda sublinhou que a história de São Miguel é uma pequena parte da história do Rio Grande do Sul e do povo negro e resumiu o que a celebração significa.
“Generoso e Isaías foram abençoados por São Miguel por acharem essa imagem. Eles a encontraram e há 150 anos existe devoção de pobres, de oprimidos e pessoas da sociedade, que aprenderam a ter fé em São Miguel. Em nome da Família Isaías e de meus antepassados, e dos futuros, agradeço a todos e à comunidade do Boqueirão pela homenagem”, afirmou.
Momento Cultural
Após a entrega da placa de Honra ao Mérito feita pelos parlamentares, foi realizado o Momento Cultural. A atração ficou por conta do grupo Alforria à São Miguel, que interpretou as canções “Chafariz da Mãe Preta”, “Siyahamba” e “Canção para São Miguel”.
Romaria a São Miguel Arcanjo
Segundo registros históricos documentados por Francisco Antonino Xavier e Oliveira, Generoso e Isaias eram pai e filho empregados de Bernardo Castanho da Rocha no templo rural de São Miguel, localizado próximo ao Rio Pinheiro Torto. Os dois lutaram na Guerra do Paraguai e Generoso teve a perna amputada devido aos ferimentos graves sofridos.
Ao retornar da guerra, ao passar pelas imediações das ruínas da Redução Jesuítica de São Miguel, encontraram à beira de uma lagoa uma estátua abandonada de São Miguel Arcanjo. Eles conseguiram uma carreta com a vizinhança local, trouxeram a imagem para a localidade então chamada “Pinheiro Torto”, em Passo Fundo.
Como capataz da fazenda de Bernardo, Generoso saía pelas vizinhanças aos sábados e domingos para arrecadar donativos para construção da capela, que foi construída com paredes de pau-a-pique e coberta de capim. Nela foi realizada a primeira festa de São Miguel, em 1871.
No dia 29 de setembro de cada ano, desde então, os festejos são realizados atraindo milhares de romeiros para a celebração de nossos costumes religiosos. Os descendentes da Família Isaías participam até hoje das celebrações, junto com o grupo Alforria a São Miguel.