Profissionais de saúde testam novo protótipo de proteção
A pandemia da Covid-19 trouxe mudanças globais inimagináveis para o século XXI. Quando se cogitaria ter que ficar em casa, fechar o comércio, evitar contato físico e qualquer tipo de aglomeração para conter o alto contágio do novo coronavírus? Essas ações podem parecer incompatíveis com a atualidade, mas tem impactado positivamente na diminuição de casos da doença. Em meio à crise sanitária, econômica, social, a resiliência e a urgente capacidade de se reinventar ganharam força total. O espírito inovador e solidário estão sob “prova de fogo”, como armas imprescindíveis para a sobrevivência do ser humano. Os trabalhadores de saúde são os mais expostos. Em Passo Fundo, seguindo o exemplo de outros países e cidades brasileiras, um grupo de médicos, engenheiro e outros profissionais concentram-se em desenvolver EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), para os trabalhadores que estão no front da Covid-19.
O idealizador de um EPI chamado traje pressurizado, Ronaldo André Poerschke, cirurgião vascular e empreendedor da empresa de simuladores médicos, Dr. X Medical Training, está testando protótipos entre profissionais de saúde dos hospitais São Vicente de Paulo e Clínicas. As instituições possuem EPI´s, entretanto, para uma situação de agravamento da pandemia na cidade e região norte, será necessário grandes quantidades de equipamentos de proteção.
Inicialmente criou-se um grupo para discutir e trocar ideias no desenvolvimento de respiradores, formado também pelo engenheiro Eduardo Spalding, da Elomed, os anestesistas João Manuel Sasso e José Grisolfi. No momento de fazer um modelo de EPI, agregou-se ao grupo o enfermeiro Marcelo Zvir de Oliveira, servidor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Posteriormente, outras equipes dos hospitais São Vicente, Clínicas, UFFS, Universidade de Passo Fundo (UPF) juntaram-se aos trabalhos.
Inspirado nos trajes pressurizados de proteção biológica, o traje de pressão positiva é caracterizado por um capuz com viseira fechada, feito em tecido certificado para proteção viral e bacteriana. “É o mesmo material de uso hospitalar, utilizado para confecção de aventais cirúrgicos. Esse dispositivo recebe aporte de ar sob pressão, numa demanda maior do que o profissional respira, assim a pressão de ar excedente extravasa pelos poros do tecido, evitando que agentes biológicos penetrem e atinjam a pessoa”, detalha Ronaldo
O especialista reitera que utilizaram materiais disponíveis nos hospitais, para facilitar posterior replicação dos trajes, caso necessitem abranger a região de Passo Fundo. Para a confecção do modelo foram usados manta de poliestireno de grau médico, com certificado de barreira viral, visor de acrílico e uma mangueira de ar hospitalar. O cirurgião vascular atenta que é importante não usar oxigênio e sim ar comprimido, pois o oxigênio puro é inflamável em determinadas condições. Em relação aos benefícios dos trajes, ele pontua que, além de elevar o nível de proteção, apresentam conforto térmico. Porém, requer treinamento para serem usados por profissionais expostos a ambientes muito contaminados.
Os primeiros testes foram realizados por Ronaldo, que passou longas horas monitorado no centro cirúrgico para avaliar sua saturação de oxigênio (O²) e risco de reter dióxido de carbono (CO²). Nesse aspecto, o especialista menciona que o material poroso do traje é justamente para não ser asfixiante e permitir a difusão do dióxido de carbono expirado para o meio.
Recém criados, os protótipos já receberam o crivo de enfermeiros, médicos que estão na linha de frente do coronavírus. O cirurgião e diretor técnico do Hospital de Clínicas, Dr. Juarez Dal Vesco utilizou o traje em procedimento de urgência, num paciente positivo para o coronavírus. Segundo ele, “o traje é de fácil manuseio, protege muito bem a face e as vias aéreas, além de ter bom acabamento que transmite confiança à equipe. Quando colocamos ar comprimido fica muito confortável do ponto de vista térmico. Está bem aprovado”, avalia.
Salvar vidas requer reforço nos sistemas de proteção
Ao observar notícias sobre a pandemia na Itália, Ronaldo percebeu uma rápida escalada diária dos sistemas de proteção. “Um dia estavam de máscara, após dois dias pareciam astronautas! As informações de que a exposição prolongada ao vírus estava matando profissionais de saúde, devido a carga viral, me levaram a estudar maneiras alternativas e de reforço na proteção das equipes que atuam nos hospitais de Passo Fundo”.
O cirurgião vascular ressalta que estão aguardando o licenciamento para produzir em maior escala e disponibilizar o modelo. Mas, afirma que poderão ser empregados em caso de extrema urgência. Há um estoque inicial de 60 unidades. “A ideia é produzir e agregar um distribuidor local de equipamentos médicos, para atingir a grande região num curto espaço de tempo. Se for necessário treinaremos outras instituições a fazer os modelos com os seus meios”, prospecta.
Neste esforço coletivo, o grupo representado por várias instituições está desenvolvendo um segundo sistema de ar pressurizado e filtrado por meio de motores elétricos e baterias, que permite maior mobilidade do profissional no ambiente de trabalho.
Quanto à criação dos trajes como reforço nos sistemas de proteção, o diretor técnico médico do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Dr. Adroaldo Baseggio Malmann, evidencia que “o coronavírus viaja em alta velocidade e da mesma maneira que o Ronaldo, com toda a sua capacidade intelectual e inventiva desenvolveu EPIs, de alta tecnologia e performance, com excelência na qualidade e segurança. Parabéns”, destaca o neurocirurgião.