Passo Fundo 162 anos: do arraial Igaí ao principal município da região Norte
Quem conhece Passo Fundo como é hoje deve imaginar que um longo caminho foi percorrido para que se chegasse até aqui. O município que hoje é um dos maiores e mais importantes do estado do Rio Grande do Sul já foi um arraial bandeirante, um povoado, uma vila e, com sua história de crescimento e desenvolvimento, chega neste mês de agosto a 162 anos figurando entre os melhores Produtos Internos Brutos (PIB) do estado e é polo em saúde e educação reconhecido em várias partes do país.
Mas essa história precisa ser contada para que se dê o devido valor a quem começou tudo isso. E também para que se reconheçam os caminhos trilhados. Se hoje o município ostenta estes títulos, houve um começo e existe um trabalho para que continue nessa estrada e cresça ainda mais.
Por isso, nas próximas páginas faremos um breve resgate e apresentaremos algumas informações que fazem reconhecer a importância de Passo Fundo, sua história e sua gente.
Como, efetivamente, se deu a formação da cidade?
A pergunta foi feita ao professor Alessandro Batistella, que é doutor em História e professor do curso de História da Universidade de Passo Fundo (UPF). Ele responde: “Antes da chegada dos europeus, a atual região do Planalto Médio era habitada por guaranis e, sobretudo kaingangs. No século 17, jesuítas espanhóis fundaram as reduções jesuíticas do Tape e, especificamente na atual região de Passo Fundo, a redução de Santa Teresa dos Pinhais, em 1632. Estima-se que a redução de Santa Teresa chegou a ter cerca de quatro mil indígenas e 500 cabeças de gado”, conta.
Conforme o professor, a redução de Santa Teresa foi atacada e saqueada por uma bandeira liderada pelo paulista André Fernandes, em 1637. “Após escravizar a maioria dos indígenas aldeados em Santa Teresa e expulsar os jesuítas, a antiga redução tornou-se um arraial bandeirante batizado de Igaí, que serviu de base de ataque a outras reduções e de controle da região”, explica.
No entanto, a partir da segunda metade do século 17, a atual região de Passo Fundo passou a ser também habitada por caboclos. “Muitos eram utilizados como mão de obra nas bandeiras, mas não regressaram a São Paulo, permanecendo na região e mestiçando-se com grupos indígenas locais. Presentes nas matas e nos ervais, os caboclos dedicaram-se à atividade extrativista ervateira”, destaca Batistella.
Os tropeiros e o rio Goio-En
A história de Passo Fundo tem tudo a ver com a história do tropeirismo, que consistia na condução de muares e cavalos entre as regiões de produção e os centros consumidores no Brasil.
“No século 18, o tropeirismo foi importante para a articulação do território meridional com o centro da América portuguesa. No início do século 19, os tropeiros passaram a percorrer uma rota que ligava os campos de Vacaria a São Borja por meio do Planalto Médio, contribuindo para a formação de núcleos povoadores (Passo Fundo, Lagoa Vermelha, Carazinho, Soledade, entre outros) na região”, afirma Batistella.
Foi através dessa atividade que se originou também o nome de Passo Fundo, inicialmente Goio-En. “Na região do Planalto Médio os tropeiros precisavam atravessar um rio chamado pelos kaingangs de Goio-En (que significa “rio fundo”, “águas profundas” ou “muita água”), rebatizando-o como rio Passo Fundo”, conta.
Formação de latifúndios pastoris
A partir da década de 1820, teve início por aqui a formação de latifúndios pastoris na região do Planalto Médio “que, inclusive, utilizavam-se da mão de obra de escravos afro-brasileiros”, completa. Na região onde atualmente encontra-se a cidade de Passo Fundo, segundo informa o professor, o primeiro luso-brasileiro a receber oficialmente um lote de terras na região foi o miliciano Manoel José das Neves, conhecido como cabo Neves.
“Nascido em Curitiba por volta do ano de 1790, Manoel José das Neves servia em um regimento de milícias na fronteira sul e lutou na Guerra Cisplatina (1825-1828), quando solicitou um lote de terras na região do ‘caminho das tropas’, no Planalto Médio, junto ao comandante da fronteira em São Borja. Após obter a concessão no final de 1827 ou início de 1828, cabo Neves chegou à região trazendo consigo família, escravos e gado. Inicialmente, fixou-se junto à nascente do arroio que os índios conheciam por Goiexim, onde uma moradia provisória foi construída próxima à fonte (onde hoje se localizam as esquinas das ruas Uruguai com a Dez de Abril). Posteriormente, Cabo Neves edificou sua moradia definitiva nas proximidades da atual Praça Tamandaré, dando origem a uma modesta fazenda agropastoril”, destaca.
Posteriormente, ao longo da década de 1830, nas proximidades onde Cabo Neves edificou a sua moradia surgiu um pequeno povoado conhecido como Passo Fundo, “que servia de rota de passagem e de repouso para os tropeiros que se dirigiam à região das missões. Inclusive, o povoado foi edificando-se em torno da Estrada das Tropas, depois chamada de Rua do Comércio (hoje Avenida Brasil) e da primeira capela – denominada de Nossa Senhora da Conceição –, construída em um terreno doado pelo cabo Neves e próxima à atual Praça Tamandaré”, explica Batistella.
Você sabia?
A efetiva formação do povoado de Passo Fundo ocorreu a partir da década de 1830. A emancipação política de Passo Fundo foi oficializada em 28 de janeiro de 1857. Posteriormente, em 7 de agosto de 1857, foi instalado o primeiro Conselho Municipal, com a posse dos vereadores eleitos. Dessa forma, somente a partir de agosto de 1857, com a posse do Legislativo municipal, Passo Fundo estava efetivamente emancipado politicamente.